Opinião

Caixa de Pandora

Mais do que saber para que serviu a Caixa Geral de Depósitos (CGD) durante os últimos anos, importa esclarecer o silêncio, a passividade, de quem tinha o dever de garantir que o banco público cumpria as suas obrigações e não o fez. O relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito à CGD, ontem entregue no Parlamento, não deixa margem para dúvidas. Tanto o acionista (ou seja, o Estado), como a entidade com a missão de supervisionar as decisões tomadas pelos sucessivos administradores (o Banco de Portugal), pouco ou nada intervieram. Demitiram-se, portanto, do seu papel.

Mas a questão de saber para que serviu, ou a quem serviu a Caixa, não deve ser esquecida. Findo o ciclo de investigação levado a cabo no Parlamento, caberá às autoridades judiciais encontrar essa resposta. Todo o material apurado pelos deputados será entregue à Procuradoria-Geral da República, entidade que apurará se houve ou não crime na forma como a CGD foi gerida.

Há uma pergunta ainda a carecer de resposta: quem se serviu, de forma irregular, da Caixa? Não parece haver grandes dúvidas, no entanto, que o único banco estatal esteve ao serviço de interesses particulares, foi usado em guerras comerciais, ao invés de cumprir a sua missão de ajudar a desenvolver o país com rigor.

Joe Berardo será, para a maioria dos portugueses, o rosto que expressa aquilo que a CGD foi e não deveria ter sido. A Berardo, o banco público emprestou dinheiro para a compra de ações com o objetivo de controlar um banco privado e não foram exigidas garantias. Berardo, como agora é do conhecimento dos portugueses, deve milhões à Caixa, que dificilmente serão recuperados, apesar dos recentes arrestos, aparentemente feitos à la carte, para sossegar a opinião pública.

O ex-comendador Berardo é apenas o símbolo do que foi a festança do banco público. Há outros, certamente. Ficamos à espera dos próximos episódios.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA