Opinião

E ficam dezoito?

O que se passa na Grécia devia ser motivo de um amplo debate em Portugal. Não é. Os partidos com representação na Assembleia da República, salvo raras exceções, limitam-se a palavras de circunstância sem a mínima clareza, tentam passar entre os pingos da borrasca a pensar nas eleições que se aproximam. Aqui ao lado, em Espanha, no domingo à noite, foi convocada uma reunião de emergência para analisar as consequências da crise grega. Em Portugal, vive-se o tal conto de crianças: querem fazer-nos acreditar que sairemos incólumes desta rotura. Não sairemos nós, não sairá a Europa.

Aníbal Cavaco Silva, o mais alto dignitário da nação, numa declaração plena de cinismo, lamenta: gostaria que a Grécia se mantivesse no euro. Mas, se tiver de sair, ficam 18. O senhor presidente da República parece não perceber o momento que vivemos. Os eurocratas europeus, sem qualquer mandato popular, estão a derrubar um governo democraticamente eleito. O povo grego elegeu um governo de Esquerda, que decidiu cumprir o seu mandato (embora disposto a abdicar de certas medidas), não aceitando os ditames puro e duros de Bruxelas. O que está em curso é uma espécie de golpe de Estado feito pelos mercados.

Domingo ficaremos a saber o que decide o povo da pátria onde nasceu a democracia. Apesar da dificuldade da formulação da pergunta para o referendo, o que está em causa é saber se os gregos aceitam as condições de Bruxelas ou se dizem não à austeridade. O dia seguinte, caso os gregos digam não, adivinha-se difícil.

O "não" grego pode significar a saída do euro e o regresso ao dracma. Mas um país que saia do euro não terá forçosamente de sair da União Europeia. Os tratados não são claros. Mas a campanha, a partir de Bruxelas e de Estrasburgo, tem um objetivo evidente: o que se está a jogar, afirma-se, é a saída da União Europeia. É essa a mensagem que o presidente da Comissão tenta passar. E isso não é sério.

Do outro lado da barricada, dois quase insuspeitos prémios Nobel, Paul Krugman e Joseph Stiglitz, fazem campanha pelo "não", sem hesitações: o que está em causa no referendo de domingo, de acordo com os dois economistas, é uma miséria infinita, caso vença o "sim" às propostas europeias. Caberá aos gregos o assumir do seu próprio destino.