Opinião

Este país não é para doentes

Este país não é para doentes

A morte de um idoso num serviço de urgência pode ser uma inevitabilidade, por mais dolorosa que seja para a família. Aos profissionais de saúde falta o dom divino de fazer milagres. Mas um idoso morrer na urgência sem ser visto por ninguém habilitado para esse fim é uma indignidade. Uma indignidade extrema, que merece reflexão e resposta célere.

Desde o Natal, oito portugueses faleceram nos serviços de urgência e não eram todos idosos. Um traço comum os une na fatalidade: falta de assistência. Ora, assistência é precisamente o que as pessoas diligenciam nos hospitais. É tempo de as administrações hospitalares agirem. Ou seja: escalar médicos e enfermeiros suficientes para cobrir as necessidades. Perante estes casos, se afigura também indigna a desculpa de que o Ministério da Saúde não autoriza a contratação de pessoal e o aumento da despesa. A vida das pessoas está primeiro.

Às administrações e aos médicos compete explicar os motivos por que não conseguem atender os doentes no tempo admissível de espera. É um dever de ética profissional e de cidadania. Que alguns cumprem. E nem sempre com resultados. De nada valeu aos médicos do hospital de Santa Maria da Feira denunciar, desde julho, as carências gritantes no serviço de urgência - um homem morreria, aí, após cinco horas de espera.

Por mais que os hospitais abram inquéritos a apurar responsabilidades, e o Ministério da Saúde venha apontar o dedo à organização das escalas dos médicos, há dados objetivos que explicam a anómala situação nas urgências. O Governo português, de acordo com a OCDE, cortou o dobro no financiamento do Serviço Nacional de Saúde do que era exigido no memorando de entendimento com a troika. E também aqui não existem milagres. Sem meios, sem profissionais, é impossível atender os doentes com dignidade. Os sem alternativa, esperam horas e horas a fio nas urgências dos hospitais públicos. Os outros, nem lá vão. Têm seguro de saúde e dirigem-se ao privado. Este país não é para doentes (velhos ou não) desapossados do vil metal.

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