Opinião

Jangada de pedra

Jangada de pedra

Parece irreal, no entanto aconteceu. Foi há poucos dias. Vários deputados, de diferentes partidos, e alguns autarcas preparavam-se para fazer uma viagem de comboio entre as Caldas da Rainha e Lisboa. Porém, para não ficar em terra, tiveram de viajar de automóvel até à capital. Uma cena anedótica, de filme com Vasco Santana. Aconteceu há dias, no país da moda. Os deputados regressaram de carro porque a CP suprimiu o comboio. Tinham alternativa. E os outros, os utentes da Linha do Oeste, se é que algum ainda resiste, de que alternativa dispunham? Nenhuma, provavelmente.

Como pode uma empresa pública de transportes cumprir a sua tarefa se despreza os interesses dos passageiros. Será a Comboios de Portugal ainda uma verdadeira empresa? E como pode o Estado, sendo o dono, não a fazer cumprir a missão para que foi criada. Ou é o Estado que não lhe dá as condições para ela cumprir o seu papel? Na página de apresentação, "a CP assume a responsabilidade de contribuir para o desenvolvimento económico e para a coesão social do país e dos seus cidadãos, através de um bom desempenho da sua atividade comercial".

Assim que se apresenta. No entanto, todos os dias dá motivos aos portugueses para desistirem dela. As decisões a prejudicar os clientes surgem em catadupa. Numa semana apenas, soubemos que o primeiro Alfa da manhã, entre Lisboa e Porto, deixará de circular; logo a seguir, foi tornado público que em agosto serão suprimidos comboios, em hora de ponta, nas linhas de Sintra e de Cascais. Já não é aLlinha do Tua, não é a ligação a Beja, a Linha da Beira Alta ou a Linha do Minho o alvo do esquecimento. A Comboios de Portugal começa a desinvestir nos percursos que servem os maiores aglomerados populacionais do país. E, perante tudo isto, o ministro do Equipamento nada diz. Curiosamente, surgem anúncios de lançamento de concursos para eletrificar pequenos troços. Como se isso fosse política ferroviária. Talvez Mário Centeno tenha a resposta.

A CP caminha para a inexistência, sem capacidade sequer de reparar as composições. O destino foi traçado quando políticos, a nadar em fundos comunitários, optaram por destruir a ferrovia e decidiram colocar as mercadorias e as pessoas nas modernas autoestradas. Foi uma opção política. Em contraciclo com a Europa. O comboio deixou de chegar a Bragança, no Douro ficou pelo Pocinho. As linhas foram fechando uma a uma, os carris, ao abandono, acabaram arrancados. As ervas tomaram conta de tudo. Depois alguém achou por bem pôr bicicletas onde antes havia comboios - o mato parava de crescer

Hoje Portugal corre o risco de ficar isolado numa Europa onde o investimento no transporte ferroviário não parou de crescer. Saramago premonitório: a jangada de pedra é real.

*EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA

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