A abrir

Os remadores solitários

Os remadores solitários

O homem que ao longo de uma década em Belém fez "tudo, tudo, tudo" bem e ainda não foi descansar, como tanto aspira, vetou a lei da adoção por casais do mesmo sexo e as alterações à lei do aborto. A marca ultraconservadora do presidente da República acompanha-o até ao fim. Aníbal Cavaco Silva, chefe do Estado à moda antiga, zela pela manutenção dos bons costumes. Interromper a gravidez sem "pagar" por isso, ou permitir a uma criança que possa viver, em vez do orfanato, numa casa, em família ainda que não a tradicional, fere a sua sensibilidade. De pouco valerá, agora, esta posição do político de longa, longa duração. Cavaco Silva, defensor da família tradicional, rema contra a maré. É um remador solitário, perdido no labirinto de certezas absolutas. Os partidos da maioria de Esquerda no Parlamento já responderam ao veto presidencial: vão devolver os diplomas a Belém sem alterar uma vírgula. E Cavaco, defensor da democracia e da Constituição, sem espaço de manobra, promulgará os diplomas. Assim será a sua despedida. De Marcelo Rebelo de Sousa, da mesma área política, espera-se outra atitude em Belém. O próprio deu sinais de, no estilo, rejeitar Cavaco e se aproximar do antigo presidente Mário Soares.

De novos ventos precisa também a Soeiro Pereira Gomes. Os comunistas obtiveram o mais modesto resultado de sempre em eleições presidenciais. Em vez de analisar a situação de forma racional, Jerónimo de Sousa atacou de maneira infeliz, numa reação sexista e de despeito a desvalorizar o adversário. "Podíamos apresentar um candidato ou uma candidata, assim mais engraçadinha, um discurso populista, e seria fácil aumentar a votação". Tentar explicar o bom resultado da candidata do Bloco menorizando as suas capacidades políticas, insinuando que Marisa beneficiou pelo facto de ser mulher e bonita, é pouco digno. É um golpe baixo e, sobretudo, não corresponde à verdade.

E esse é o problema do PCP (ou do seu líder). Marisa Matias, sem dúvida, é uma mulher bonita, e cria empatia na rua. Mas não foi, seguramente, pela beleza que a candidata bloquista conquistou mais de 469 mil votos. Conseguiu transmitir uma mensagem clara, atual, ao eleitorado. A resposta está aí. Se os comunistas quisessem apresentar um candidato engraçadinho também o tinham. Mas, como o próprio Jerónimo reconheceu, "não somos capazes de mudar".