Opinião

Perplexidades paisagísticas

Perplexidades paisagísticas

Vivo numa vila (na verdade é cidade há alguns anos, mas insiste em que lhe chamem vila) de traça quinhentista.

Só chamo aqui o local onde vivo porque, tal como Viana do Castelo, esta localidade do Norte do País de beleza singular tem nela várias aberrações urbanísticas, se teimarmos em chamar aberração urbanística ao prédio Coutinho - outros encontrarão no imóvel um testemunho do evoluir urbanístico em Portugal.

Torna-se difícil perceber quais os motivos que levam à demolição de certas aberrações urbanísticas, quando os outros continuam a viver habitualmente com elas. Aponte-se uma localidade sem edifícios a destoar na paisagem: imóveis construídos como sinal de modernidade, em muitos casos, e integrados na vivência urbanística. Muitos outros foram alvo de polémica, contestados, pretexto para abaixo-assinados e petições. Lá estão, resistentes, fazendo parte da paisagem. Não quero com isto dizer que as autoridades devam ser complacentes perante erros urbanísticos. Aliás, a paisagem é um bem precioso, comum, devendo ser preservado.

Manifesto apenas perplexidade pela decisão tomada em relação ao Edifício Jardim, em Viana do Castelo, construído no lugar do antigo mercado, na década de 1970. Deu polémica, é verdade, avanços e recuos na aprovação da licença de construção. Acabou por ser levantado na marginal de Viana. No entanto, no tempo em que José Sócrates assumia a pasta do Ambiente e o socialista Defensor Moura presidia à autarquia foi decidido demoli-lo, por ferir a paisagem. Motivo digno, é verdade e até algo inesperado neste pequeno país pouco ordenado e que tanto descuida a sua paisagem.

É um bom pretexto, enfim, dado aos cidadãos para exigirem o fim das agressões paisagísticas de Norte a Sul do País. Sigamos o exemplo aplicado ao prédio Coutinho. Fica a sugestão: comecemos pelas Torres de Ofir, ali tão perto, essas sim a a agredir verdadeiramente a paisagem e a contribuir para a erosão da costa. O Ministério do Ambiente já se apercebeu desta anomalia rente ao mar?

* Editora-executiva-adjunta