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Opinião

Siza não entrava em arquitetura

Siza não entrava em arquitetura

O mais distinto arquiteto português não teria entrado na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, se fosse um jovem estudante do Ensino Secundário nos nossos dias. Álvaro Siza chegou à Faculdade de Belas Artes, após a realização de uma prova de ingresso em que tirou 14 valores - recorda o arquiteto, num trabalho publicado domingo na revista "Notícias Magazine".

Uma nota mediana portanto, limitadora de acesso a qualquer um dos cursos que auspiciam um futuro de sucesso. Assim, Álvaro Siza não entraria na Universidade do Porto: o último aluno do curso, em que o autor do projeto do Museu de Serralves foi professor e marcou gerações de arquitetos, entrou com 17,7 valores.

A classificação modesta aos níveis de hoje, como sabemos, não ofuscaria o brilhantismo ao nosso primeiro Pritzker. Este caso singular devia servir de reflexão a quem insiste em manter o método de acesso ao Ensino Superior, feito com base em critérios quantitativos, baseados na média obtida ao longo do ano e dos exames finais.

Não podemos ignorar. Vivemos, sem dúvida, tempos distintos daqueles em que o jovem Álvaro Siza se dividia entre a paixão da escultura e o dever de não dececionar os pais: e, por isso, ingressar num curso com algum futuro. Tudo mudou desde então. O ensino democratizou-se, e ainda bem. Hoje uma larga fatia da população tem acesso à universidade e é necessário criar critérios de seriação - apesar do livre acesso, não há naturalmente lugar para todos.

E quem são os alunos que entraram com a nota mais alta na universidade? Gonçalo Martins, 17 anos, entrou no curso de Engenharia Aeroespacial, no Instituto Superior Técnico, com uma média de 19,8 valores (média de 20, portanto). O jovem garante não ter perdido nada da sua adolescência passada na Póvoa de Varzim. Brilhante, pois parece impossível viver a juventude e atingir a mais alta classificação.

*Editora-executiva-adjunta