Opinião

Viver com o mar aos pés

Viver com o mar aos pés

Centenas de casas e dezenas de equipamentos ao longo da costa, entre Caminha e Espinho, têm o destino traçado. Para concretizar a medida, serão gastos milhões de euros nas demolições. O argumento é o evidente avanço do mar e a salvaguarda das populações. A iniciativa poderá ser polémica. Quanto ao avanço do mar, é um fenómeno notório: só não vê quem não quer. Basta uma caminhada ao longo da costa para se verificar os efeitos que, ano após ano, o oceano provoca.

O Plano de Ordenamento da Orla Costeira de Caminha resulta, sem dúvida, de erros sobre erros cometidos durante décadas. A ameaça do mar engolir as construções sobre dunas primárias está cada vez mais próxima. Não se percebe, portanto, a persistência no erro. No litoral de Vila do Conde, encravado na Reserva Ornitológica do Mindelo, começa a nascer um prédio de vários andares. Mais a norte, ainda na vizinhança da mesma reserva, surgiu um loteamento e diversas casas estão em fase de construção. A pergunta é óbvia: como é possível autorizar construções nestes sítios, com tanto conhecimento sobre alterações climáticas e erosão costeira?

Os responsáveis pela autorização, é claro, vão argumentar com os famigerados direitos adquiridos, responsáveis por tantos crimes ambientais, e respetivas indemnizações a desembolsar se o proprietário do terreno perdesse a capacidade construtiva. Quando um futuro plano da orla costeira decidir demolir o que agora começa a ser construído, será essa entidade abstrata, a que chamamos Estado, a responsável pelas indemnizações. Resta-nos saber argumentos a usar pelos promotores imobiliários para vender apartamentos a escassos metros do local onde o mar, verão após verão, derruba fortes muros de betão. Talvez recorram a um slogan que vi, num empreendimento de luxo na Apúlia, há uns anos: "Viva com o mar a seus pés". E ninguém os poderá acusar de publicidade enganosa. É apenas a imagem concreta, real, da enorme irresponsabilidade permitida por quem governa o país.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA

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