Opinião

Decidir pela morte digna

Decidir pela morte digna

Rede de cuidados paliativos é uma coisa, morte assistida outra. O debate de uma e de outra deve seguir os seus caminhos paralelos, mas independentes. Em Portugal, por muito que alguns queiram desviar a discussão da morte assistida agitando a alternativa dos cuidados paliativos, há uma realidade indesmentível. E só não vê quem não quiser. A rede de cuidados paliativos e continuados apresenta-se incipiente, mal dimensionada e, em muitos casos, existe onde é pouco ou quase nada necessária - aumentando o sofrimento das famílias, forçadas a deslocarem-se centenas de quilómetros para acompanhar um ente querido doente.

Devemos todos, é claro, lutar para que a rede de cuidados continuados exista de facto, seja melhorada e esteja disponível em todo o país. É um ato de humanidade, de carinho, aos que se aproximam da vertigem da morte. Uma morte digna. Afinal, é o que se exige, ou se deseja. Que os doentes sejam tratados por gente com competência técnica para o fazer, junto dos familiares e do seu mundo a extinguir-se. Uma rede de cuidados continuados terá de abrir esse caminho de afeto final. De contrário, torna-se armazém de mortos-vivos.

Sendo assim, a rede de cuidados continuados terá de abarcar toda a gente, todos os que a procuram. E este direito à morte digna não é contraditório com a possibilidade de um indivíduo - em grande sofrimento, sem alternativa por ele tida como aceitável para reverter a situação - decidir, ajudado, pôr termo à dor, à sua vida. Legislar sobre morte assistida abre a possibilidade de cada um de nós poder ter a palavra final. Uma questão, sem dúvida, de pura liberdade individual. Poder decidir hoje se quero ficar na cama, imobilizada, ausente, numa comunicação impossível com os "desconhecidos" que me rodeiam. Em profundo sofrimento. Não é o direito de quem cuida que está em causa: é o direito de quem pretende fintar a morte e antecipar o fim. Com humanidade.

É a possibilidade de, em consciência, tomar uma decisão. Se a justiça me dá a possibilidade de, enquanto detentora de todas as capacidades cognitivas, definir a quem lego os meus bens, mais premente se torna deixar em testamento a forma como desejo iludir a dor, o sofrimento.

Uma decisão egoísta, é verdade. Não estou a pensar naqueles que teriam a obrigação, moral pelo menos, de cuidar de mim. Como de um bebé. Grande, pesado. De me chegar a água, acender a luz, manter o quarto aquecido ou fresco, meter a papa na boca, limpar a que escorre. Não é a eles que quero poupar. Acredito que tudo fariam para me manter agarrada à vida. Mas ficar agarrada à vida, quando a vida é apenas uma vaga lembrança, ou nem isso, será outra coisa - que não vida.

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