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Marcelo e o simbólico

Marcelo e o simbólico

Uma avioneta com quatro tripulantes explodiu, ontem ao final da manhã, logo após ter descolado do aeródromo de Tires, em Cascais. Há a registar cinco mortos. Os ocupantes do aparelho e o motorista de um camião que se encontrava a descarregar mercadoria no local onde a aeronave caiu. Nada que, infelizmente, não tivesse acontecido noutros locais, com mais ou menos vítimas.

Do que não existe memória é de um presidente da República se ter deslocado ao local de um acidente deste tipo. Marcelo Rebelo de Sousa chegou quase tão rápido à zona de cobertura da tragédia como os meios de socorro, quase tão depressa como os jornalistas. Uma presença inusitada obrigaria os serviços da Presidência a esclarecer que entre as vítimas não havia qualquer político ou figura pública.

Há um limite para definir qual a gravidade de um acontecimento que justifique a presença da mais alta figura do Estado? Não, não há seguramente um protocolo que defina onde deve e não deve ir o presidente da República. Apenas a Constituição da República Portuguesa estabelece quais os poderes e funções do presidente. E é claro que Marcelo Rebelo de Sousa, sem desrespeitar a lei fundamental, nunca se limitou a fazer apenas o previsível.

É um presidente "junto" dos portugueses, uma opção que se torna muito mais evidente quando o comparamos - e fazemo--lo quase sempre - ao seu antecessor, Aníbal Cavaco Silva. Resta saber se com esta espécie de omnipresença Marcelo não estará, ainda que inadvertidamente, a vulgarizar o cargo.

Para além de, nos termos da Constituição, o presidente representar a República Portuguesa, "garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas" , sendo ainda o comandante supremo das Forças Armadas. Parece pouca coisa a Marcelo Rebelo de Sousa. A lei fundamental prevê também que o chefe do Estado faça "um uso político particularmente intenso dos atributos simbólicos do seu cargo e dos importantes poderes informais que detém". Marcelo parece ter nascido para isso. Até agora, não deixou de usar o cargo para chamar a atenção dos problemas do país. A visibilidade dada aos sem-abrigo é o exemplo perfeito dessa sua missão. Mas ao tomar posição sobre praticamente todos os assuntos da vida nacional (desde um desfile de moda a uma partida de futebol) e ir a correr colocar-se ao lado da Proteção Civil, após um acidente, corre o risco de desvalorizar o sentido do cargo - o seu poder simbólico.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA

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