Opinião

O Carnaval de Temer

O circo está de volta a Brasília. A sede da democracia transformada mais uma vez em arena. De um lado, os a favor de Michel Temer; do outro, os que o querem ver responder na justiça e fora do poder. O inimaginável desfila perante o nosso olhar incrédulo. Deputados que levam bonecos insufláveis para o plenário, outros que os tentam furar; outros ainda empunham tarjas e notas falsas.

Não parece, mas o assunto é sério. É a operação Lava Jato a atingir o mais alto dignitário da nação brasileira. O (para muitos ilegítimo) presidente Michel Temer é acusado de corrupção passiva: de ter recebido milhões de reais, entregues numa mala a um amigo, deputado do seu partido. Temer é o primeiro presidente a ser denunciado no exercício do cargo.

Perante a acusação, o presidente que tomou o poder a Dilma Rousseff - sem que sobre a presidente eleita pendesse qualquer suspeita de corrupção - está a fazer tudo para evitar o julgamento. E para isso não há limites. Até vale mesmo que ministros do seu Governo se "demitam" para, por 24 horas, assumir o lugar de deputado. No dia seguinte, voltam ao Palácio do Planalto. Entretanto cumpriram a missão, fizeram lóbi por Temer. Já fizeram todas as promessas (im)possíveis, garantiram os favores necessários para que o voto seja favorável. No Brasil enorme - "maior do que o abismo", como dizia alguém -, neste momento, parece não haver impossíveis.

As contas fazem-se deputado a deputado. O futuro joga-se numa sessão do Senado brasileiro a decorrer, na noite de ontem, em grande animação. Na mão dos senadores está o futuro político do desacreditado Temer: se a Câmara dos Deputados aceitar a acusação do Ministério Público, de corrupção, o presidente será julgado pelo Supremo Tribunal de Justiça, o processo de impeachment avança.

A estratégia de Temer é a fuga para frente, tentando desacreditar Joesly Batista. Este empresário gravou uma conversa com o agora presidente brasileiro em que se discutiam pagamentos de favores. O gigante Brasil fica paralisado, pendente do futuro do seu presidente. O mesmo que assumiu o poder graças a um golpe palaciano. A destituição pode estar certa. O que parece incerto é o futuro.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA