Opinião

O direito de Soares à indignação

O direito de Soares à indignação

O que faz correr Mário Soares? O percurso deste "laico, republicano e socialista" permite-lhe não ser politicamente correto. A única coisa de estranho é ver alguns portugueses surpreendidos com as suas declarações inesperadas. Não foi Soares, no exercício do cargo de presidente da República (é certo, o primeiro-ministro era Cavaco Silva), que apelou ao direito à indignação? Soares pratica-o, determinado.

Ontem, reuniu centenas de amigos no seu 90.º aniversário. Forçado ao exílio pela ditadura de Salazar e Caetano, Mário Soares, um dos fundadores da nossa democracia, assinou o tratado de adesão de Portugal à CEE. Desempenhou o cargo de primeiro-ministro e de presidente da República. Na festa de aniversário, que reuniu amigos de várias correntes políticas, demonstrou uma enorme humildade. "Não mereço tanto, sou um simples cidadão". Disse mais: tudo o que fez ao longo da vida, fê-lo pelos outros.

Como antes, nos dias de hoje, Soares não vira as costas aos amigos. Ele, o líder histórico do PS, foi dos primeiros a visitar José Sócrates na prisão de Évora. Fez a visita e usou da palavra, à saída, sem assombro, sem qualquer preocupação em não ferir suscetibilidades. Meio país ficou indignado, é certo. Nada que preocupe Soares. Não é um homem de consensos. Mas sabe ler os sinais do tempo, e, por isso, fizera consensos quando o PSD era social-democrata e o CDS dirigido por democratas-cristãos. Chegaria mesmo a "meter o socialismo na gaveta". Mas o Mário Soares genuíno - que aconselhou o presidente da República, Cavaco Silva, a demitir-se - pratica o direito à indignação. Não teme as ruturas. Nem deixa os amigos esquecidos. Não foi Soares que visitou na Tunísia o ex-primeiro-ministro Betino Craxi, fugido à justiça italiana, durante uma visita de Estado? "Não deixo cair os amigos", disse. Continua igual a si próprio. Os que veem nisso apenas um sinal de idade avançada, estarão, por certo, enganados. É apenas Soares, assim mesmo.