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O golpe está aí

É um enorme país partido ao meio. O processo de destituição da presidente Dilma Rousseff não tem volta. Num espetáculo pouco digno, os deputados votaram por maioria o processo de "impeachment" da presidente. No Brasil, quando o povo não está contente, não espera por novas eleições. Destitui.

O primeiro passo está dado. Dois terços dos eleitos para a Câmara dos Deputados votaram a favor do afastamento da presidente. O passo seguinte é definitivo e será dado em maio pelo Senado, que só precisa de maioria simples para destituir Dilma.

Ironia das ironias. Dilma Rousseff é acusada de ter abusado da pedalada fiscal, um expediente usado já por Fernando Henrique Cardoso. E o que é, afinal, a pedalada fiscal? O Governo que precisa de pagar contas às empresas e aos cidadãos passa essa fatura para os bancos públicos, dando a ideia de que as suas contas são mais saudáveis do que na realidade são. É esse o crime de Dilma.

Ironia das ironias, grande parte dos deputados que ontem votaram pelo "impeachment" têm pendentes questões criminais com a Justiça. De acordo com o jornal "Estadão", de S. Paulo, dos 513 deputados que puderam votar, 299 acumulam 1193 ocorrências judiciais. E dos 25 partidos com assento no Parlamento brasileiro apenas um deles não tem qualquer problema com a Justiça. Curiosidade: tem um deputado.

Portanto, a democracia prossegue o seu curso com o vice--presidente Michel Temer já a preparar nos bastidores a constituição de um novo Governo. Só mais uma ironia. O homem forte do PMDB, ao contrário de Dilma, é suspeito, no âmbito do processo de corrupção Lava Jato, de ter recebido luvas.

Algo vai mal no grande país da América do Sul. Ontem, uma reportagem do "Folha de S. Paulo" dava conta do sentimento dos brasileiros. Os apoiantes de Dilma e Lula da Silva sentem--se vítimas de um verdadeiro golpe de Estado; os outros admitem que o "impeachment" não vai melhorar a situação económica do Brasil, mas querem castigar Dilma, ou o Partido dos Trabalhadores, que conseguiu tirar da pobreza milhões de brasileiros.

O Brasil está partido ao meio pelo ódio. Resta saber para onde vai o povo na rua canalizar esse ódio. Essa é a grande dúvida e o grande desafio que se coloca ao povo brasileiro. O golpe está aí.