A ABRIR

O novo anormal

Ia ficar tudo bem, nada voltaria a ser como antes, disseram-nos. Mentira. Vai ficar tudo bem, apenas para alguns. Ficará tudo muito pior para os do costume. E nada vai mudar que mereça a pena ser assinalado, a não ser em cada um de nós, dependendo da forma como vivemos interiormente estes tempos tão estranhos cujo fim não se vislumbra sequer.

À medida que a vida é retomada, não nos é dado qualquer sinal de que algo novo esteja a nascer. As soluções são as de sempre. Transformar universidades em locais sem alunos e sem professores, passar a resolver o problema das consultas médicas com teleconsultas, não é efetivamente mudar nada, apenas tornar a estatística mais favorável.

À primeira oportunidade para dar um sinal de que, efetivamente, havia disponibilidade para fazer diferente, os nossos deputados resolveram não fazer ondas. A proposta do PEV de não conceder apoios públicos a empresas com sede em paraísos fiscais, sem hesitar, foi recusada. Como nos velhos tempos, PSD, CDS, PS e Iniciativa Liberal votaram contra; PCP, PEV , BE, PAN e Joacine Katar Moreira, a favor. E o deputado do Chega, comodamente, faltou à votação.

E assim as nossas grandes empresas continuam a pagar impostos onde lhes dá jeito, em vez de contribuírem para o bolo nacional. No entanto, num gesto de raro patriotismo, não abdicam de sugar o erário público. E aqueles a quem damos legitimidade para mudar as coisas, através do voto, decidem deixar tudo como dantes. Uma posição do Parlamento que agradou ao ministro da Economia. Seria um desconforto para o Governo socialista o país aprovar medidas, por iniciativa própria, sem indicação de Bruxelas. Uma vez mais, tudo na mesma. Preparemo-nos, portanto, para um regresso ao passado. O mundo das Finanças, esse, continua dono e senhor das coisas, mesmo que as suas decisões não sejam o melhor para as pessoas em tempos de dura crise.

*Editora-executiva-adjunta

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