Opinião

O país das boas contas com maus serviços neonatais

O país das boas contas com maus serviços neonatais

Um bebé prematuro morreu depois da sua mãe ter sido transferida do Hospital de Faro, no Algarve, para o de Amadora-Sintra, na Grande Lisboa.

É cedo para dizer se a morte decorreu de problemas provocados pela transferência da grávida. Mas este é mais um caso que vem chamar a atenção para a situação que se vive nos hospitais portugueses.

Pode ser apenas um caso e a morte do bebé não ter qualquer relação direta com as circunstâncias que levaram a obrigar uma mulher grávida a fazer centenas de quilómetros para receber, ela e o seu filho, cuidados de saúde que todos, em qualquer país, devíamos ver assegurados.

O Ministério Público abriu um inquérito e agora resta-nos aguardar pelos resultados. No entanto, ficou claro que o serviço de neonatologia do Hospital de Faro não tinha incubadoras suficientes e que em toda aquela área não existia alternativa.

Aconteceu no país que teve o seu ministro das Finanças na short list de candidatos à presidência do Fundo Monetário Internacional porque esse governante pôs as contas em dia. Um país com boas contas, como dizem ser Portugal, só as pode ter depois de o mínimo ser assegurado. E a saúde é o mínimo que devemos exigir.

A morte do bebé talvez nada tenha a ver com a rutura na neonatologia do Hospital de Faro. Se a criança tivesse morrido no Algarve, a sua perda seria obviamente de lamentar, mas não estaríamos agora a discutir as falhas no Serviço Nacional de Saúde, apesar de os responsáveis pela unidade algarvia terem já garantido que o transporte foi feito depois de avaliados todos os parâmetros de segurança.

Têm sido demasiados os sobressaltos relacionados com os hospitais portugueses e, sobretudo, como os serviços de obstetrícia e neonatais. Ainda ontem vieram a público relatos de grávidas que não conseguem marcar consulta de acompanhamento de gravidez nos hospitais de Lisboa. Quem já esteve à espera de um filho sabe como é importante ter uma noção clara de como está a crescer aquele ser dentro de nós. A recusa de consultas de acompanhamento de gravidez é o assumir de uma dura realidade. Os que possuem meios económicos não hesitarão em marcar uma consulta no setor privado e, sejamos honestos, nem sequer equacionarão ser acompanhados num hospital público. Tristemente são os mais desfavorecidos os que mais riscos correm. São esses sem alternativa e, como ouvi uma mãe contar, vão aos serviços de urgência sujeitando-se a esperar horas com pulseira verde para terem a garantia de que tudo está bem com a vida que se está a gerar dentro de si.

Não é uma situação condizente com um país de boas contas.

* EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA