Opinião

O remoto medo da peste

O remoto medo da peste

Recebidos com pedras, a caminho da quarentena. Na passada semana, na Ucrânia, vários cidadãos, na maioria ucranianos resgatados da China, foram assim recebidos quando eram encaminhados, no interior de um autocarro, para uma estância onde ficariam em isolamento. De repente esquecemos que corre o ano de 2020, recuamos à Idade Média e vemos os portadores da peste serem apedrejados.

Estamos na Europa, no século XXI. Graças às autoridades que intervieram, nada de mais grave aconteceu. Mas o medo está aí, não tem piedade e tolhe qualquer réstia de racionalidade. Aquelas pessoas, a caminho de um período de quarentena, nem sequer estavam infetadas - mesmo assim, foram alvo da ira popular.

O coronavírus alastra, sem dúvida, a uma velocidade preocupante. Por isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) equaciona declarar uma pandemia. Praticamente sem aviso, paralisa cidades, regiões inteiras, força à aplicação de cordões sanitários. Numa época em que a tecnologia faz quase tudo, e falar de inteligência artificial deixou de ser ficção científica, esta nova epidemia chinesa reduz o Homem à sua dimensão inicial: indefeso no universo, sem, por enquanto, ter a ajuda da ciência para afastar a ameaça.

O Mundo mostra-se inquieto. Eventos de grande escala são sucessivamente suspensos, a economia poderá entrar em crise outra vez, as bolsas mundiais atingem níveis alarmantes. E o quotidiano, em certas zonas, transforma-se numa espécie de filme de terror. Cidades desertas, apenas com carros de som a circular pedindo aos habitantes para se manterem em casa.

Da China chega, todavia, um sinal. A OMS confirma que a epidemia aí está a recuar. Uma boa notícia, mas não o bastante para nos considerarmos imunes.

*Editora-Executiva-Adjunta

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