Opinião

Pensar o país real

São oito e dez de uma manhã de chuva. Há um adolescente para deixar na escola e cerca de trinta quilómetros de distancia até ao local de trabalho. Passam vinte minutos das dez quando a distância é vencida.

A rádio já transmite, em direto, o debate do Programa do Governo. Algum daqueles deputados, nos seus habituais exercícios de retórica, terá noção do que é o dia a dia de um português? Duvido.

É uma manhã diferente das outras, é certo. A chuva cai inclemente e isso é sempre sinónimo de dificuldades no trânsito. Mas em dias normais, àquela hora, a viagem nunca demora menos de sessenta minutos.

O que se pede a quem, por estes dias, exercita a eloquência na tribuna do Parlamento é apenas para pensar o país em função das pessoas. Tentem, pelo menos, reverter décadas de políticas desligadas da realidade quotidiana.

Não seria justo, sem dúvida, ignorar o programa de apoio ao uso dos transportes públicos, através do Programa de Redução Tarifária nos Transportes (PART), com resultados evidentes, lançado pelo anterior Governo. As pessoas aderiram. Apenas isso. O que é muito pouco, e quem vive nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto sente-o todos os dias. Se a utilização do automóvel nas deslocações pode transformar o início e o fim do dia numa verdadeira tortura, usar o metro ou os autocarros começa também a transformar-se num suplício. Não chega criar o PART, mantendo tudo inalterável no que se refere aos equipamentos. O número de utentes disparou, o ambiente agradece. Mas quanto tempo vão as pessoas aguentar viagens de uma hora, apertadas como sardinha na lata, com tempos de espera inadmissíveis em zonas urbanas e, pior ainda, pouco fiáveis?

A medida foi das mais importantes do pós-25 de Abril para a qualidade de vida dos portugueses. No entanto, se nada mais for acrescentado, será com certeza mais uma oportunidade perdida.

*EDITORA-EXECUTIVA-ADJUNTA

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