Opinião

Proibido esquecer

"Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo". A frase, do filósofo e poeta espanhol George Santayana, recebe quem entra num dos muitos pavilhões do campo de concentração de Auschwitz, na Polónia.

Lá dentro esperam-nos os rostos dos que perderam a vida durante um dos capítulos mais negros da história da humanidade. Os rostos de uma pequena parte das vítimas, fotografadas à chegada ao campo, numa altura em que ainda perdiam tempo a fotografá-los (mais tarde limitavam-se a tatuá-los), estão ali: homens e mulheres, judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, inválidos, para que jamais esqueçamos.

Terrível inimigo é o esquecimento. Valem-nos os testemunhos dos sobreviventes. Ontem, no dia em que se celebrou o 75.º aniversário da libertação do campo de extermínio pelo Exército Soviético, na sequência da vitória dos Aliados na II Guerra Mundial, lembraram mais uma vez o horror. Recordá-lo devia ser obrigatório. Um estudo recente da Agência para os Direitos Fundamentais da União Europeia, revela que os judeus estão cada vez mais preocupados com o regresso das perseguições, e pelos menos 28 em cada 100 dos inquiridos disseram já ter sido alvo de ofensas.

Estão vivos cerca de 400 sobreviventes do Holocausto. Sobreviventes dos 45 campos de extermínio espalhados pela Europa durante o nazismo. Ninguém pode alegar desconhecimento e, no entanto, a intolerância cresce imparável. Só na Alemanha, os atos de violência contra judeus aumentaram mais de 60 por cento num ano. Em 2018, foram registados 62 ataques violentos que provocaram 43 feridos; no ano anterior tinham sido 37. Há um erro, contudo, que devemos evitar: tal como no nazismo, a intolerância não é apenas relativa aos judeus. Nos dias que correm, como há 75 anos, a intolerância é direcionada a todos os que são diferentes, como refugiados ou imigrantes. Na semana passada, numa civilizada cidade alemã, uma estudante foi confrontada com o seu incipiente alemão. "Não falas alemão? Então que estás cá a fazer?" - perguntava, sem meiguice, o funcionário de um quiosque.

*Editora-executiva-adjunta

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