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Um pouco acima de lixo

Um pouco acima de lixo

Uma boa notícia. Mais uma das muitas com que temos sido brindados nos últimos dias. Nada mais que isso. A Comissão Europeia recomendou, ontem, que Portugal saia do Procedimento por Défice Excessivo, situação em que se encontrava desde 2009. Ultrapassámos o limite de três por cento do Produto Interno Bruto (PIB) e, desde aí, o país teve de se sujeitar a uma série de apertadíssimas regras impostas pela União Europeia.

A Comissão Europeia propõe e, tudo indica, em junho a União Europeia acatará a recomendação. E, afinal, o que vai mudar para melhor na vida dos portugueses? Provavelmente muito pouco ou quase nada. O dia de ontem foi, sem dúvida, de um enorme simbolismo. Portugal conseguiu aquilo que muitos, há poucos meses, julgavam impossível. O défice ficou abaixo dos 2%. E pode-se, agora, aspirar a que as malfadadas agências de rating olhem para o nosso país de outra maneira - algo acima do lixo.

Quem olha para a notícia como o fim de todos os males da sociedade portuguesa estará, com toda a certeza, equivocado. Nada de estrutural deverá mudar. Bruxelas continua a impor as regras, tal como ficou claro na comunicação feita por Pierre Moscovici, o comissário europeu da Economia. O aviso foi claro. Se não se portam bem, voltam os castigos. Portanto, bem podem os partidos da Esquerda, apoiantes do Governo, exigir que o alívio seja refletido na vida das pessoas, dos que mais sofreram nos últimos anos e graças a eles, como realçaram vários vozes cá dentro e lá fora, foi possível pôr as contas públicas outra vez no bom caminho.

António Costa, se quiser manter o estatuto de bom aluno, terá pouca margem de manobra para responder de forma positiva. Os que recomendaram a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo foram os mesmos que lembraram ser necessário continuar de cinto bem apertadinho. E o mercado de trabalho estará sempre na mira de Bruxelas, para que não haja veleidades. O aviso está dado: com as medidas previstas, Portugal não cumpre as regras que lhe são exigidas.

O dia de ontem foi mais um dia simbólico. A tradução desse significado será clarificada lá para outubro. Quando conhecermos o Orçamento do Estado para 2018, saberemos o que Centeno e Costa darão a Bruxelas para saciar os mercados e a Europa.

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