Opinião

Viver sitiado

Em casa, agora. Trabalha-se, estuda-se, tenta-se ajudar a estudar, sobretudo, tenta-se acreditar que tudo isto pode ser vivido com o mínimo de normalidade. Não pode. Porque é difícil prever até quando durará o nosso estado de sitiados. Nem me atrevo sequer a ir ver o mar - o medo de encontrar alguém, tão negligente quanto eu, no caminho que serpenteia as dunas, obriga-me a ser consciente e permanecer em casa. Não por mim, pelos outros.

Em casa, a ensaiar possibilidades de normalidade. A mostrar a um adolescente que, apesar de tudo, terá de viver como antes: ir às aulas, agora no computador. A bem da verdade, não são aulas, mas recados e encargos. Levantar e deitar a horas, como se no dia seguinte houvesse a urgência de apanhar o autocarro para não chegar atrasado; treinar a horas, apesar da última vez que meteu o barco ao rio estar já distante.

E não saber quando vamos ver os amigos de novo. Festejar o aniversário - este ano um número redondo - em casa e não com os irmãos, as irmãs, os sobrinhos e os sobrinhos-netos na casa grande que foi de todos e agora está sem ninguém. Ainda foi no outro dia, fizemos essa promessa feliz de a encher novamente de gente.

Hoje é o Dia Mundial do Estudante e pedem a milhares de alunos em pausa forçada para se unirem, que partilhem a sua nova vida, mostrem que é possível. Mas viver assim, como dizia o poeta, também cansa. Estamos em estado de exceção, acordamos pela manhã e o pesadelo continua, neste viver habitualmente com medo de algo invisível, mas poderoso, capaz de fechar o mundo.

Abrimos a porta da rua para voltar à vida. Não vamos. Ficaremos mais um dia em casa. A trabalhar, a estudar, a procurar estratégias para conseguirmos viver num egoísmo imposto, higiénico, sem os amigos, os irmãos, os pais - tantos sem perceber, aturdidos, porque não os procuramos como antes, porque os deixamos cada vez mais sós.

*Editora-executiva-adjunta

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