Opinião

Votar sem medo

Há muito que um ato eleitoral havia deixado de ser sinónimo de longas filas de gente à espera para votar. Há muito que um dia de eleições tinha deixado de ser especial, uma espécie de festa, de comemoração pelo direito de democraticamente podermos escolher quem nos representa.

Quando, ontem, a caminho do trabalho, entrei na Rua de Damião de Góis, no Porto, a primeira reação foi de espanto. "Que é isto, os portugueses não têm remédio!" - achava eu, de repente, que parte da cidade tinha saído à rua para apanhar sol. Nada disso, a fila a dar várias voltas, seguia em direção ao Centro Cultural e Desportivo dos Trabalhadores da Câmara Municipal do Porto, onde funcionava, na cidade, a assembleia de voto antecipado.

E onde muitos viram o caos, eu vi pessoas a votar, apesar da situação sanitária muito grave que estamos a viver. E apesar de a expectativa de alguns ter sido defraudada, estariam à espera de não se cruzarem com muitas pessoas, e de em certas situações o distanciamento não ter sido respeitado, a nota dominante é de grande normalidade e segurança. Cumpriram o seu direito cívico, demorando mais tempo, é certo, na fila, como se pôde ver nas imagens divulgadas ao longo do dia.

Quando se espera destas eleições presidenciais uma abstenção recorde, o dia de ontem foi um sinal de que existem muitos portugueses a combater a indiferença, mesmo em ambiente de pandemia - que regista em Portugal números deveras preocupantes. Espera-se que esta afluência registada junto às assembleias de voto, em vez de fazer pensar que afinal pode ser perigoso ir votar, devido ao número elevado de pessoas, sirva para os responsáveis da Comissão Nacional de Eleições corrigir os erros. Assim sendo, a situação sanitária não poderá ser usada como pretexto para se ficar em casa, deixando-se de exercer um direito, tantas vezes desperdiçado.

*Editora-executiva-adjunta

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