Opinião

A doutora contente e o juiz feliz

A doutora contente e o juiz feliz

Não precisava de ter tido duas filhas para perceber que a vida só faz sentido se homens e mulheres tiverem os mesmos direitos e os mesmos deveres.

Mas, tendo duas filhas, preciso de estar mais atento aos debates que se vão fazendo sobre a igualdade de género, não vá o Mundo começar a andar para trás e eu acabar a tropeçar na minha própria inércia. Há ainda um longo caminho a percorrer e a batalha mais urgente tem de ser a de não deixar cair nenhuma das conquistas já feitas.

É altamente ofensivo para a inteligência de qualquer ser humano descendente do "homo sapiens" aceitar como certo que o homem tem mais direitos que a mulher. Mas, ainda há quem, preso aos dogmas do "homo erectus", do "homo habilis" ou mesmo do"australopithecus", gaste o seu tempo a juntar palavras para tentar convencer o Mundo que "a mulher gosta de se sentir útil, de ser a retaguarda e de criar a estabilidade familiar para que o marido possa ser profissionalmente bem-sucedido". Foi o que fez a médica Joana Bento Rodrigues, militante de uma tendência cristã do CDS, em texto publicado no "Observador".

Não fala em nome dela, fala em nome delas e é isso que torna insuportável aquele texto, que a Direção do "Observador" teria repudiado se tivesse sido escrito por um muçulmano de Esquerda. Um projeto jornalístico ao serviço de um projeto político está sempre sujeito a ter de deixar cair a máscara. Mas, se ao "Observador" se pode apontar responsabilidades, porque elas existem do ponto de vista editorial em tudo o que é publicado num órgão de Comunicação Social, não me parece justo que se crucifique o CDS, porque a atuação política de Assunção Cristas, igualmente católica praticante, está nos antípodas desta militante centrista.

A dra. Joana não se dá por feliz por ter a vida com que sonhou, defende que a sua visão do papel da mulher deve prevalecer sobre a visão da "mulher dita feminista", porque essa "optou por se objetificar, pretendendo ser apenas fonte de desejo em relações casuais, rejeitando todo o seu potencial feminino, matrimonial e maternal". Que pena no curso de Medicina não se lecionar semântica. A dra. Joana teria percebido que, por muitos significados que queiramos dar à palavra feminismo, esta luta faz parte da mais urgente de todas as lutas: chama-se justiça e pressupõe que haja igualdade de direitos e de deveres entre todos os seres humanos.

Nesta igualdade, aliás, não cabem os doutos argumentos que o juiz Neto de Moura insiste em usar para justificar sentenças que, invariavelmente, acabam a desculpar a violência doméstica. Maridos que não se sentem "profissionalmente bem-sucedidos" por a mulher não ter sido "a retaguarda e não ter criado a estabilidade familiar", na lógica da senhora doutora, podem acabar por ser vistos, na lógica do senhor juiz, como figuras bíblicas, com direito a apedrejar mulheres adúlteras.

Num país em que alguém ainda julga ser possível discutir se faz sentido que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, a violência de género acaba por ser, "apenas", um mal com o qual temos de viver. Como se não fosse possível acabar com as mortes, como se estivéssemos destinados a ter violência em mais de metade dos namoros.

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Nota: Para dizerem tudo, como os malucos, talvez fosse melhor fazerem um dueto inspirado num grande momento do Nicolau Breyner e Herman José e apresentá-lo como humor:

- Como vai senhora doutora?

- Como vai senhor juiz?

- Diga à gente, diga à gente, como vai este país.

- Senhor juiz, há umas feministas com a igualdade a acenar. São direitos, são deveres, onde é que isto vai parar?

- Sabe, senhora doutora? Ouço falar em anarquia e no dia a dia em censura, quem sabe não seria melhor voltar a ditadura.

Jornalista

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