Opinião

E se o povo acusasse Mário Nogueira?

E se o povo acusasse Mário Nogueira?

Quando as escolas fecharam e o ensino à distância teve de avançar, a Fenprof apressou-se a colar cartazes, afirmando que "nada substitui o professor e nada substitui a escola". Não esteve sozinha.

Desde o primeiro minuto, alistaram-se imensos voluntários neste movimento de defesa do regresso rápido às aulas presenciais. Para combater as desigualdades entre alunos, que se agravam fora da escola; para permitir um desenvolvimento mais saudável das crianças - a saúde mental também conta - e para proteger o emprego e a carreira dos professores.

A verdade é que, ao mesmo tempo, a Fenprof começou um levantamento (pesquisar notícias de abril, maio e junho) sobre as inúmeras dificuldades para retomar as aulas presenciais. Esse movimento foi mais notório, obviamente, quando o Governo decidiu retomar as aulas presenciais para o 11.º e o 12.º ano, mas nunca tinha atingido o nível de desfaçatez que atingiu na sexta-feira, com a ameaça de responsabilizar criminalmente o Ministério da Educação e a DGS pelo que possa vir a acontecer com os professores.

Não há nada de estranho na ação de um sindicato que defende as melhores condições para os trabalhadores que representa, mas essa luta não pode nunca deixar de atender ao interesse geral e não pode, não deve, ir para além do razoável. Dividir as turmas em duas e contratar o número de professores necessário a esta operação, para garantir o distanciamento de dois metros, não é possível. Mas é possível pensar num esquema misto de aulas presenciais e à distância, como forma de diminuir o risco. Na luta da Fenprof convém que esteja presente a disponibilidade para fazer parte da solução.

Professores e alunos vão viajar em transportes públicos sobrelotados, como já hoje viajam muitos trabalhadores. Isso preocupa o senhor Nogueira ou está convencido de que os professores vão todos em carro próprio para a escola? Entre muitos outros, os caixas de supermercado nunca deixaram de trabalhar; os padeiros nunca deixaram de fazer pão; os trabalhadores de limpeza nunca deixaram de recolher o lixo; os médicos, os enfermeiros e os auxiliares nunca deixaram de atender doentes. Tudo isto foi feito para que nada faltasse ao senhor Nogueira. A ele e a todos nós.

Se a ação de Mário Nogueira levar ao adiamento das aulas presenciais, pode haver aqui matéria para os pais e os alunos acusarem o líder da Fenprof, como "responsável moral e eventualmente material", por hipotecar o futuro de milhares de jovens e promover a desigualdade.

Jornalista

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