Opinião

A dinastia do Rato

Para começo de conversa, convém deixar claro que a ética republicana, que começa por ser uma exigência de transparência na gestão da coisa pública, se aplica de igual forma aos governos das monarquias e das repúblicas. Convém, aliás, lembrar que nas democracias que optaram pelo regime monárquico, os laços familiares permitem o acesso aos títulos nobiliárquicos, mas é do povo que emana o poder legislativo e executivo. O povo dá, o povo tira.

Por existir um dever de transparência, isso não implica que um familiar de um governante ou de um deputado esteja impedido de ser nomeado para um cargo público. Sim, ninguém pode ser prejudicado por ser mulher ou marido, filha ou pai, tia ou sobrinho, mas todos temos o direito de achar estranho que os cônjuges de uma série de políticos que fizeram a carreira juntos tenham todas as competências necessárias para uma série de cargos de nomeação política.

O argumento de que o que importa é ter os melhores em cada um dos lugares da governação, e da estrutura que gravita à volta desses lugares, é um bocadinho falacioso, porque nunca existe a necessária transparência para que cada um de nós possa aferir da bondade dessas nomeações. Quando a lista de familiares não pára de crescer, ficamos todos a pensar que a "máquina" de medir a competência ou está avariada ou o software é "made in" Largo do Rato.

Vamos lá ver! Há aqui um grande grau de injustiça pela generalização que comportam as críticas à nomeação de familiares. No limite, cada uma dessas nomeações e todas elas podem ser, para além de legítimas, justificadas pelo facto dessas pessoas serem competentes para os cargos que ocupam. Mas não deixariam de ser um desvio da ética republicana, comprovando que a sociedade "justa e solidária", preconizada no artigo 1.o da nossa Constituição, não se cumpre porque com competências iguais, uns são mais iguais que outros, ao estarem mais perto do poder.

É até confrangedor que, na tentativa de justificar as razões e os direitos que assistem à nova dinastia, Carlos César tenha contra-atacado, acusando o Bloco de Esquerda de ter abundantes relações familiares e Marques Mendes de ter um pai que foi deputado e uma irmã que é deputada, não distinguindo cargos de eleição de cargos de nomeação, nem cargos partidários de cargos públicos. Porque terá o presidente do PS sentido necessidade de ir por aqui, se até pensa que existe um direito "natural que, em determinadas famílias, onde essa vocação se multiplica, as pessoas tenham empenhamento cívico similar"? Só há uma explicação, o líder parlamentar do PS sabe que estas polémicas não matam, mas moem, e se passar a eterna ideia de que eles são todos iguais, os danos para os socialistas serão menores.

A mim custam-me muito estas generalizações, a que não se pode fugir quando se confirma a existência de um padrão. Sei da efetiva competência que tem Mariana Vieira da Silva, como sei que a mulher de Pedro Nuno Santos já trabalhava com Duarte Cordeiro e só transitou com ele da Autarquia para o Governo. De todos outros casos, pouco sei. Mas o que pensar de um Governo onde não pára de crescer o poder dos amigos do líder, onde as mulheres dos jovens turcos, que o ajudaram a ganhar o PS a António José Seguro, também foram nomeadas, onde existe Carlos César e a família? A "maioria absoluta é virtualmente impossível", porque quando se vive numa República com direitos dinásticos, fica sempre o receio de que tudo isto descambe no absolutismo.

*Jornalista

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