Opinião

A política pode ser uma coisa séria

A política pode ser uma coisa séria

Rui Rio tem cometido erros? É evidente que sim, mas não cometeu o erro capital de deixar de ser quem é para fazer o que a bem-pensante Lisboa jornalística e política entende que devia ser feito. Uma corte formatada por anos de experiência adquirida nos corredores do poder não aceita que lhe mudem as regras, não aceita ter menos poder do que aqueles que foram eleitos para exercer o poder. Não é novo, não passou a ser assim porque Rio chegou à cidade. E, por não ser novo, Rio tinha a obrigação de ter preparado melhor a forma como iria lidar com estas dificuldades de comunicação.

Um eleitor exigente percebe que falte ao líder do PSD paciência para passar a vida a responder a interlocutores medíocres, críticos a quem a Comunicação Social dá valor apenas pela polémica que garantem e que até há bem pouco tempo eram vistos como fracos pela mesma Comunicação Social que agora os promove como fortes. Mas a exigência com a forma como se faz política não tem crescido, bem pelo contrário. Pelo mundo fora, na Europa em particular, crescem os populismos. Não aqueles que apontam a Rui Rio por dizer que as empresas de Comunicação Social buscam o lucro e apostam, portanto, em todas as polémicas que satisfaçam a vontade dos seus clientes. É uma crítica a pensar em votos, dizer que a Comunicação Social vende cada vez mais informação/entretenimento? Não me parece. É apenas a contestação de uma evidência. Rio não acusou os jornalistas de mentir ou de manipular informação, afirmou apenas que a política tem, ou deve ter, interesses bem distintos das empresas de Comunicação Social.

A verdade é que parte significativa da corporação dos jornalistas está zangada com Rui Rio e isso nota-se. Críticos internos, adversários políticos, jornalistas, comentadores... para Rio não há distinções e esse é um dos erros que mais lhe complicam a vida como líder do PSD. Se os junta a todos no mesmo saco, acaba por contribuir para passar a ideia de que há uma maioria que lhe é hostil.

Por mais que ele tente impor o seu estilo e esse estilo não seja do agrado da maioria dos que ajudam a formar a opinião pública, o que há de importante a passar-se com Rio não tem a ver com estilo, é bastante mais substantivo, é uma questão de ser... ser sério a fazer política. Não coloco a questão em contraponto com a restante classe política porque isso seria uma cedência ao populismo que imagina os políticos todos igualmente maus. Políticos com a seriedade de Rui Rio há em todos os partidos. Foco-me na questão específica do imposto sobre a especulação com o imobiliário, cuja discussão Rio de imediato se prontificou a defender depois de apresentada pelo Bloco de Esquerda.

Sobre esta questão, António Costa apressou-se a fragilizar o Bloco de Esquerda, insinuando que a proposta pretendia colmatar o prejuízo político da história de Robles, ao afirmar que não percebia a pressa pela apresentação desta proposta. Desmentido pelo BE, que afirmou ter apresentado esta ideia há meses, nunca o líder do PS corrigiu a declaração que fez sobre a matéria, nem a bancada dos socialistas se prontificou a discutir o assunto com seriedade. Assim, como assim, o PCP e PS fizeram o jogo da Direita e permitiram ao CDS fazer um brilharete com a redução do debate a um soundbite: "É a taxa Robles". Do lado contrário, Rio afirmou que não podia dizer que era um disparate só porque a ideia vinha do Bloco e esclareceu que considerava importante legislar para diminuir a especulação dos que compram e vendem em poucos dias criando lucros artificiais.

Num país em que a bolha imobiliária cresce assustadoramente, em que se adivinham novos problemas para os bancos que emprestam dinheiro para comprar casas sobreavaliadas, em que a classe média está a ser expulsa do centro de Lisboa e Porto por rendas incomportáveis, há quem queira fazer política de uma forma séria, mesmo que isso implique ser crucificado pelos críticos internos e pelos jornalistas e comentadores. Ainda bem. Pode ser que o exemplo pegue.

* JORNALISTA

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