Opinião

O Bloco vai pedir desculpa?

Tão lestos são alguns políticos quando se trata de apontar o dedo aos outros e tão lentos de raciocínio quando os problemas são lá em casa. Gente com grande capacidade de ler politicamente o país, desta vez ficou perdida na teoria da conspiração. O que era uma evidente e grave falta de coerência entre o que se diz e o que se faz para a grande maioria dos portugueses, era para a maioria dos dirigentes do Bloco uma cabala.

À hora em que entreguei este texto na Redação do JN, não era conhecida nenhuma decisão da Direção bloquista sobre a solução encontrada para substituir o demissionário Ricardo Robles. Mas essa também não era a questão que me preocupava enquanto eleitor e jornalista. A pergunta que faço no título desta crónica pode até já estar respondida. A Direção do Bloco, que ontem voltou a reunir por causa da polémica Robles, pode já ter pedido desculpa aos eleitores de Lisboa por os ter enganado, fazendo exatamente o que dizia combater. Pode também ter pedido desculpa ao PSD que, por se atrever a sugerir que Robles fizesse o que fez (demitir-se), foi transformado por Catarina Martins em culpado em investigações que ainda decorrem. E, finalmente, talvez já tenham pedido desculpa aos jornalistas a quem acusaram de fazer parte de uma cabala ao serviço de interesses obscuros.

Acontece que em 30 anos de jornalismo e muitas redações percorridas, nunca vi um partido ser tão bem tratado como o Bloco de Esquerda. Desde que Francisco Louçã esteve quase a ser eleito deputado, se a aldeia de Dona Maria, em Sintra, lhe tivesse dado os 200 votos que lhe faltaram em 1991. Só lá chegou oito anos depois, mas desde que nasceu que o BE viveu nas redações com um nível de tolerância que nenhum outro partido alguma vez conseguiu, descontando a segunda metade da década de 70 com redações fortemente politizadas. Ainda assim, estalou o verniz a Catarina Martins e as redações apanharam por tabela por causa da asneira grossa que fez o camarada Ricardo Robles.

Catarina, da grande moral, queria as redações de férias e os jornalistas acríticos. Tudo calado e a bater palmas porque o camarada Robles foi fortemente tentado pelo prazer da especulação imobiliária, mas resistiu a tempo e retirou a sua aposta da mesa do casino mesmo antes de haver notícia sobre esse vício tão burguês que é ganhar dinheiro. Queria ganhar mas não ganhou, sugeriu Catarina para denunciar uma cabala dirigida por especuladores estrangeiros com jornalistas a soldo que escrevem mentiras, tão bem escritas que até parecem verdade.

E sim, há perguntas que se fazem nos cafés e teorias da conspiração a propósito de negócios que são tão espetaculares mas só calham aos camaradas desta vida. Mas dessas insinuações de que o Bloco é agora vítima muito se tem aproveitado o Bloco sempre que o alvo são os outros. Como se viu na reação de Catarina, da grande moral, a metralhar o PSD, dando-o como culpado de coisas que para já está apenas a ser investigado, só porque o PSD se atreveu a pedir a demissão do camarada Robles. Logo no Bloco que nunca pediu a demissão de ninguém. Logo o Bloco a querer que um partido pague todo ele pelo crime que alguns militantes possam ter cometido.

E mesmo quem fez autocrítica, como Luís Fazenda, sugerindo reflexão e conclusões, não se inibiu de atirar a matar contra a cobertura jornalística deste caso, considerando "muito interessante este movimento que se estendeu a todo o país", acrescentando com uma falsa ironia que "teve mais eco que as bravatas de Manuel Pinho". Esperar do Bloco de Esquerda um pedido de desculpa a quem enganou ou a quem injustamente acusou é uma perda de tempo. Eles estão mesmo convencidos que o arcanjo Robles acabou derrotado pelo diabo. Mal ele não fez nenhum, lutou contra os especuladores, foi seduzido por eles, resistiu e voltou atrás, revelou todas as suas virtudes e aguentou-se até onde pôde. Era tarde, o diabo tinha recrutado os jornalistas e os comentadores para o seu exército. Ricardo Robles é o grande mártir da causa bloquista contra a especulação imobiliária. O que se pode fazer? Os dirigentes do BE parece que não perceberam mesmo o que se passou.

* JORNALISTA