Opinião

O lado luminoso e o lado escuro de Costa

Em tempo de férias, antecipando a dura discussão que vai ser preciso fazer sobre o Orçamento do Estado para 2019, anda o Governo atarefado em colocar alguma água na fervura em que assentou a política de que tudo era possível, bastando fazer tudo ao contrário do que foi feito no tempo da troika. Sendo que tudo diferente, tendo em conta a coligação parlamentar formada para viabilizar o Governo do PS, era repor os rendimentos e fazer crer aos sindicatos da Função Pública que também eles faziam parte da santa aliança. O problema é que as grandes expectativas jogam sempre contra quem as gera. Mais depressa ou mais devagar, o caminho era para ser feito em conjunto. Só que o caminho, mais metro menos metro, chegou ao fim. Agora é preciso preparar o último orçamento e as eleições do próximo ano.

Não se estranha, por isso, que o primeiro-ministro, em declarações ao "New York Times", num artigo que deveria servir para elogiar a forma como Portugal ultrapassou a crise, tenha aproveitado para enviar uns recados que são obviamente para consumo interno. "Não passámos do lado escuro para o lado luminoso da lua. Ainda há muito para fazer", sentenciou António Costa, numa evidência que só mesmo os seus parceiros parlamentares podem ainda não ter percebido. Nem sequer é uma questão de falta de entendimento, é uma opção política que à Esquerda indicaria a continuação de um caminho e que com o PS no Governo significa uma travagem para evitar uma saída da estrada.

No mesmo dia, no "Público", Mário Centeno explica que, "quando a ambição vai além das nossas capacidades, muitas vezes falhamos". É por isso que doa a quem doer, o Governo do PS já decidiu que prefere um confronto com os seus parceiros e com os sindicatos da Função Pública do que com Bruxelas. É o que melhor serve a sua estratégia eleitoral. Se a "geringonça" terminar antes do tempo previsto, o PS não terá de assumir nenhuma responsabilidade. Apresentará o Orçamento do Estado que o ministro das Finanças já desenhou, haverá disponibilidade para negociar umas bandeirolas da Esquerda, mas não mais do que isso. O partido que colocou Portugal perto da bancarrota no início da década, agora quer provar que sabe ser responsável e "não compromete o mesmo euro duas vezes". Palavra de Centeno.

Aqui chegados, com esta narrativa assumida como válida pela maioria dos eleitores, que espaço sobra para o Bloco ou o PCP provocarem uma crise em volta do orçamento? Praticamente nenhuma. Nem mesmo o discurso de que o PCP não está interessado em repetir a "geringonça" é para levar a eleições.

O Bloco há muito que percebeu que tem potencial de crescimento na classe média das grandes cidades e o que promete é influenciar o futuro Governo, de preferência estando lá dentro. Aceitou a corda lançada por Costa, faz de conta que navega à bolina mas vai para onde sopra o vento.

O PCP não mudou de opinião, não está interessado em dar nova vida à "geringonça", onde claramente foi quem mais perdeu, mas não pode continuar a gritar aos quatro ventos que está desiludido. Colocar-se antecipadamente de fora é tornar inútil o voto na CDU. A verdade é que o PS aprovou orçamentos com os votos comunistas, mas quer alterar a legislação laboral com a UGT, os patrões e a Direita parlamentar, deixando de fora a CGTP e o PCP. Não me parecem sentidas as juras de amor feitas recentemente por Jerónimo de Sousa e João Oliveira. Dizem o que tem de ser dito, mas sabem que o que vão exigir para continuar a suportar um Governo socialista é impossível de ser aceite por um Executivo que, em matéria essencial para os trabalhadores, voltou a estar mais perto do PSD e de Bruxelas do que da Esquerda parlamentar.

*JORNALISTA