Opinião

O PS não quer o PSD a aprovar o Orçamento

No momento em que se realiza o debate sobre o estado da nação, o primeiro com Rui Rio na liderança da Oposição, os críticos - será melhor dizer os anteriores detentores do poder interno - preocupam-se em desgastar o presidente do PSD e ignoram os problemas cada vez mais profundos que marcam a vida da "geringonça". O que os preocupa é mesmo a possibilidade de Rui Rio estar a conduzir o PSD para bom porto. Não retirar Rio da liderança antes das legislativas significa não estar no barco quando ele atracar. É por isso que no PSD há muita gente que não é capaz de ver o Mundo para lá dos corredores da Assembleia da República. É o seu lugar que está em perigo e, assim sendo, ainda vamos ter muitos episódios de guerrilha interna, na esperança de serem eles a fazer as listas.

Descontando os amuos de quem se adivinha longe da ribalta, temos de lembrar que com Rui Rio a política não se lê da mesma forma. A larga maioria dos analistas tem acesso fácil aos críticos, dificuldade de entendimento com Rio e uma leitura sobre o sucesso político medido em parâmetros que a Rio nada interessam. Procuremos a resposta para algumas perguntas que ajudam a perceber o sucesso ou insucesso da liderança social-democrata:

1. O adversário do PSD é o PS e a sua aliança à Esquerda. A "geringonça" está hoje melhor ou pior do que quando Rio assumiu a liderança? Está evidentemente pior e também por responsabilidade de uma Oposição mais responsável e da aproximação do PSD ao PS em matérias de regime.

2. A atual solução política, que só permite ao PSD governar se tiver maioria com o CDS, tem hoje mais ou menos probabilidades de se repetir no dia a seguir às eleições? Tem pouquíssimas probabilidades, o que pode permitir ao PSD governar se ganhar sem maioria à Direita.

3. Sobre o PSD, existe hoje a perceção de que está mais perto ou mais longe de regressar ao poder do que estava com Passos Coelho? É evidente que está mais perto e até o fantasma do bloco central regressou em força ao debate político.

Com a resposta clara a estas perguntas se percebe facilmente que a liderança de Rui Rio está longe de ser o insucesso pintado pelos críticos internos e pela generalidade da opinião publicada a partir da corte de Lisboa.

Olhemos agora para o próximo combate político, a discussão sobre o Orçamento do Estado. Se Bloco ou PCP falharem no apoio ao PS para aprovar o documento, António Costa quer o apoio do PSD? Essa possibilidade que tanto aflige os hipercríticos, mesmo antes de conhecerem o documento, seria mais prejudicial para os socialistas do que para os sociais-democratas. Ao PSD era passado um atestado definitivo de partido responsável e preocupado com o país, ao PS o atestado que lhe passariam os parceiros da coligação parlamentar também era definitivo, mas era o atestado de quem regressou para os braços da Direita. E era dessa forma que todos entravam em ano de três eleições. É evidente que António Costa prefere partir para eleições antecipadas por falência política da "geringonça" e nisso tem o apoio do presidente da República.

É por isso que só mesmo quem está apenas preocupado em fragilizar a liderança do seu próprio partido pode andar tão entretido a criticar um cenário que os favorece. Se o PS precisar dos votos do PSD, não os vai pedir porque não os quer. Nestas circunstâncias, o que os sociais-democratas devem ponderar seriamente é mesmo oferecer-se para aprovar o Orçamento do Estado mediante negociação. Vão ver que os outros valores mais altos se levantam e que ninguém deseja os seus votos em final de legislatura.

Rio lá vai fazendo o seu caminho, sem mostrar nervosismo perante a sucessão de polémicas, a precisar aqui e ali de afirmar a sua liderança. Sempre com má Imprensa e má opinião publicada. Se não o entendem, como poderiam concordar com ele. Esse esforço Rio é incapaz de fazer. Age muitas vezes como se tudo estivesse predeterminado.

Jornalista