Opinião

Assim se vê a força de você!

Assim se vê a força de você!

Você, caro leitor e eleitor, já anda a ser assediado para umas eleições que só vão acontecer dentro de um ano. Não é ainda tempo de lhe lançarem slogans que parecem promessas ou vontades que nunca serão assumidas como compromissos. Por agora, eles estão só a tentar pôr na sua cabeça uma ideia, a ideia de que você sozinho consegue determinar como é que o PS vai governar na próxima legislatura. Se estiver atento, você vai ver que ninguém põe em causa a vitória de António Costa, o que os preocupa é a força que você lhe vai dar.

Por exemplo, o PS quer mais força (votos) para a Esquerda governar. O contrário do que lhe pede o PCP, que quer ver o PS com menos força, evitando assim que os socialistas vão a correr fazer alianças com a Direita nas matérias mais importantes. O Bloco, depois do caso Robles, anda só a ver se não perde a força mas, seja como for, o que cada um dos partidos de Esquerda lhe vai dizer é que precisa da sua força como única forma de dar mais força à Esquerda. Não é a força dos mosqueteiros, "um por todos e todos por um", é mais cada um por si.

Na Direita andam todos entretidos no tiro ao boneco e só a espaços se lembram de você, caro leitor e eleitor. Tem de os desculpar ou, pelo contrário, agradecer-lhes. A seu tempo deixarão de falar para Rui Rio e sobre Rui Rio e também eles se vão dedicar a explicar-lhe porque é que o regresso da Direita ao poder depende de você votar no partido A e não no partido B. Pode dar como garantido que o CDS de Assunção Cristas e a Aliança de Santana Lopes vão fazer como o Bloco e o PCP, desdenhando da utilidade do partido maior. Pode haver Esquerda sem PS e Direita sem PSD? Poder, pode, mas não serve para conquistar o poder. Sem esta dicotomia Esquerda/Direita, sobra o bloco central que todos temem e ninguém quer defender.

A força da sua escolha é que permitiu a António Costa acabar com essa coisa do voto útil que existiu em Portugal até 2015. Um voto que se resumia ao PS e ao PSD, para saber quem nomeava o primeiro-ministro, obrigando à criação de alianças formais ou informais. No próximo ano, por exemplo, podem todos dizer que não querem o bloco central, mas se uma larga maioria de vocês votar PS e PSD, sem que seja possível formar uma maioria parlamentar onde não estejam estes dois partidos, que remédio têm eles senão formar o odiado bloco. Está a ver a força que você tem? É uma situação difícil de acontecer, mas é teoricamente possível.

Se você pertence a uma claque, não se iluda. Não é por si que eles já estão em campanha. Se é de Esquerda como quem é do Porto e do Benfica ou se é de Direita como quem é do Sporting e do Braga, conhece bem a homilia. Votará onde sempre votou e, esteja descansado, o seu voto vale tanto como o de quem vai mudar pela enésima vez.

O conselho que é preciso dar a todos os eleitores é que levem a sério a força que tem o voto de cada um. Lembre-se que ele enfraquece quando nos rendemos a slogans e a populismos, quando nos limitamos a seguir a corrente. O que é preciso é que cada um pense no que verdadeiramente quer ver feito, na ideia que tem do que deve ser a sociedade. Com tempo, procure perceber o que tem genuinamente cada partido para lhe dizer sobre o que verdadeiramente lhe importa.

P.S.: "Assim se vê a força do seu voto" era o modo correto de escrever em português o título desta crónica. Só que foi ouvindo Jerónimo de Sousa, na festa do Avante, que me inspirei para a escrever. Nos tempos áureos do Partido Comunista Português, quando nas legislativas os votos eram sempre com dois dígitos e os comunistas governavam meia centena de autarquias, era sempre isto que se ouvia: "Assim se vê a força do PC!".

*JORNALISTA

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