Opinião

Como se constrói uma maioria que não se pede

Como se constrói uma maioria que não se pede

Esta época de verão em que pouca política acontece, e se critica Rio por estar desaparecido e Cristas por aparecer demais, chegou ao fim. Os socialistas já voltaram e Costa promete um Mundo ainda melhor do que o Mundo em que vivemos. No próximo fim de semana começam a regressar os outros. A um ano das legislativas o que se discute é se o PS vai ter maioria absoluta e se o seu líder a deve defender ou se já o está fazer quando pede aos que nunca votaram nele que o façam agora.

Houve um tempo em que a Aliança Democrática preconizava uma maioria, um governo e um presidente, como única forma de fazer as reformas de que o país necessitava, depois dos primeiros anos pós-revolução em que parte da economia ficou paralisada. Sá Carneiro e companhia defendiam as virtudes dessa maioria parlamentar que acabaram por conseguir ao convencerem um grande número de eleitores de que só assim era possível governar. Mais tarde, em 1991, Cavaco Silva foi mais longe e fez saber que não governaria sem maioria. Tinha-a conseguido em 87 e sabia ser impossível descer desse patamar e continuar a governar. Como se viu com Sócrates, com uma vitória sem maioria em 2009, depois de a ter conseguido quatro anos antes.

O argumento da impossibilidade de governar não serve a António Costa, precisamente porque ele demonstrou ser possível formar maiorias de diferentes latitudes, até sem vencer as eleições.

Como a cada eleitor só se pode pedir um voto e não a participação voluntária numa maioria de votos, não sendo imprescindível obtê-la diretamente nas urnas como única forma de governar, resta merecê-la. Aos olhos de quem não votou PS nas últimas legislativas, os socialistas merecem uma maioria? Justifica-se contrariar a intenção natural de voto para garantir a continuidade da ação governativa? Para o eleitorado do Bloco e do PCP não, porque votar nestes partidos é a única forma de garantir que o PS continuará influenciado à Esquerda. Para o eleitorado de centro-direita também não, porque defendem outras políticas. Sobra o eleitorado flutuante, suficientemente grande para contribuir para uma maioria de um só partido ou de uma coligação nas urnas.

O PS terá por certo mais votos do que em 2015, porque superou as expectativas (baixas) com que iniciou esta legislatura e melhorou a vida de pensionistas, funcionários públicos e milhares de portugueses que não tinham emprego. Mas crescerá o suficiente para atingir essa maioria? São precisos mais 600 ou 700 mil votos. Bem acima dos 550 mil que conseguiu o BE ou os 445 mil da CDU. Mesmo que o PSD se fique pelos 30% e o CDS pelos 6 ou 7 (igualando o resultado conjunto de há quatro anos); a quem vai António Costa "roubar" tantos votos?

Se é verdade que a reposição de rendimentos e o crescimento do emprego melhorou a vida de muita gente, também é verdade que os salários no privado não recuperaram os valores do pré-crise e há muitos serviços públicos, pagos com os nossos impostos, que estão muito pior do que estavam.

P.S.: Ontem viajei no Alfa da CP de Lisboa para o Porto e hoje regresso a Lisboa. Ida e volta tem desconto mas ainda assim são 78 euros na classe 1. Tanto se tem dito sobre a miséria a que estão a chegar os caminhos de ferro portugueses que até custa bater mais no ceguinho, mas tem de ser. Como tinha de vir a trabalhar (entre outras coisas a escrever esta crónica) solicitei um lugar com ficha elétrica para ligar o iPad. O lugar tinha ficha mas não funcionava e a carruagem estava num estado absolutamente deplorável (velha, suja e cheia de nódoas). Um Governo que desleixa os serviços públicos, seja nos transportes, na saúde ou na educação, merece uma maioria absoluta? E uma Oposição que não aparece a defender quem paga impostos e é tratado desta forma nos comboios, nos hospitais ou nas escolas, merece o voto?

* JORNALISTA

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