Opinião

Esquerda, Direita, e um país em luta

Esquerda, Direita, e um país em luta

A luta que o país tem de travar para acabar com a violência doméstica merecia melhores ativistas de Direita e de Esquerda. Confesso a vergonha alheia com que assisti a discussões nas redes sociais, com ilustres pensadores a esgrimir argumentos para saber se as mortes da sogra e da filha às mãos do homicida do Seixal deveriam ou não ser incluídas na violência contra as mulheres. Como se o facto de haver mais ou menos mulheres mortas pudesse servir para dar razão a alguma das partes.

Num país em que uma luta a merecer unanimidade é capaz de gerar as maiores imbecilidades, não se espere que Esquerda e Direita possam significar mais do que pertença a uma claque. É isso que vemos, por exemplo, quando se fala de outras duas lutas, com interesses mais prosaicos e percebemos que a Esquerda acusa a Direita de ser incoerente ao defender o que a Esquerda sempre defendeu e agora já não defende. Ao mesmo tempo que a Direita acusa a Esquerda de ser incoerente ao defender o que a Direita sempre defendeu e agora já não defende.

A greve dos enfermeiros é um caso de estudo na história das greves em Portugal. É tão eficaz que já conseguiu fazer com que o Governo, apoiado por toda a Esquerda parlamentar, perdesse o pé e começasse a disparar em todas as direções, procurando convencer a opinião pública de que não há legitimidade nesta luta. O primeiro-ministro, António Costa, declarou-a selvagem e ilegal, procurando dividir o sindicalismo entre bom e mau, sendo que o bom é o que não está em greve e o mau é o da UGT, central sindical liderada por um seu camarada de partido.

Contra a forma da greve, contra o seu financiamento, contra a envolvência da Ordem e da bastonária. A sentença governamental não procura mediação, quer uma solução que tem de passar obrigatoriamente por uma vitória política, aquela que pode resultar do transtorno causado pela greve, com milhares de cirurgias adiadas. O novo sindicato, nascido fora da órbita da CGTP, tem de claudicar. Quando alguém se convence que pode ganhar com o prolongamento do conflito, o que exige é uma rendição incondicional, porque negociar pode parecer um sinal de fraqueza.

Sejamos claros, como na maior parte das greves, a principal motivação dos enfermeiros é a melhoria salarial. Ganhavam 1000 euros em início de atividade e conseguiram chegar aos 1200, mas estamos a falar do salário bruto. É legítimo que queiram ganhar mais e, sobretudo, é exigível que tornem totalmente transparente quem está a financiar a sua luta.

Outro dos efeitos desta greve dos enfermeiros foi o de secundarizar a luta dos professores pela a contagem total do tempo em que as carreiras estiveram congeladas. Essa é uma luta com outra força, unindo os sindicatos, da UGT e da CGTP, a Esquerda e a Direita, com a exceção do Governo. Uma luta que já teve igualmente greves cirúrgicas, aos exames ou à avaliação dos alunos, mas que nunca teve cheques-exame ou cheques-avaliação para que os privados ajudem a recuperar o tempo perdido no público, nem se admitiu em nenhuma circunstância o recurso à requisição civil.

É, aliás, muito provável que o Governo gostasse de ter agora um endurecimento na luta por parte dos professores, para poder juntar tudo no mesmo saco e erguer a bandeira dos defensores dos contribuintes, contra os desvarios egoístas destas duas corporações do funcionalismo público. Do lado contrário, há uma Direita defensora desta luta, ao lado de corporações que até há bem pouco tempo eram o inimigo. A luta continua!

*Jornalista

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