Opinião

Marcelo continua a ser do povo

Marcelo continua a ser do povo

Marcelo procurou, desde o primeiro dia, estar perto do povo para que fosse o povo, em primeira mão, a avaliar a sua performance como presidente de todos os portugueses. Eu pude testemunhar o primeiro passo dado nesse sentido. A 9 de março de 2016, desci a Calçada da Estrela para me dirigir à Assembleia da República e comentar a posse do quinto presidente da Republica eleito no pós-25 de Abril. Marcelo Rebelo de Sousa resolveu ir a pé para a tomada de posse e cruzamo-nos no caminho. Na rua toda a gente o queria cumprimentar, as janelas de um autocarro que passa abriram-se e abriram-se também uma série de sorrisos de gente feliz por lhe poder gritar: "Marcelo!". Uma carrinha com pedreiros, a caminho de uma obra, não quis ficar atrás e entrou na festa. Como entraram todos, os que com ele se cruzaram naquele dia.

A 9 de março de 2016, quando desci aquela Calçada, preocupava-me que o seu estilo levasse a política para um exercício ainda mais fútil de procura incessante de popularidade e não conseguia antecipar como iria o novo presidente fazer a quadratura do círculo. A Esquerda tinha a maioria no Parlamento, mas tinha sido em representação da Direita, que ficou em primeiro lugar nas legislativas, que o ex-comentador fora eleito. Tendo de optar entre a Esquerda e a Direita naquele exato momento, Marcelo deu colo à maioria e salvou o país. Nada teria sido pior para Portugal do que substituir um período duro de ajustamento financeiro por um período de grande instabilidade política, que só podia ter como consequência uma nova crise económico-financeira.

O presidente podia ter feito a vontade a uma parte do seu eleitorado, que ansiava por vingança, mas optou por correr o risco de ter a Direita mais radical, liderada pelos comentaristas do "Observador", à perna todo o mandato. Tem sido assim e isso pode ajudar a explicar a quebra na nota que as sondagens dão ao professor. De lá até cá, talvez tenha tido alguns excessos. Por exemplo, "não lembra ao careca" ter um presidente da República a visitar o local de um acidente com um elétrico numa curva de Lisboa. Esses excessos podem também ter custado alguns apoios? Não sabemos, a popularidade de um presidente, entre eleições, só interessa medida qualitativamente. Os índices de popularidade baixaram nas sondagens. E daí? Marcelo passou a ter hostilidade nos contactos com o povo? Já não há quem o queira beijar, cumprimentar, abraçar? As selfies passaram de moda ou há na política quem rivalize com ele para ficar no retrato de cada português? Talvez tenha chegado o momento de perguntar aos inquiridos nas sondagens se admitem a possibilidade de votar Marcelo nas próximas presidenciais. Não votando nele, querem outro no Palácio de Belém? Ficaríamos esclarecidos sobre os verdadeiros níveis de popularidade do presidente da República.

Acusado de levar o Governo ao colo durante a legislatura, Marcelo foi bem duro com Costa e o seu Executivo quando a linha vermelha foi ultrapassada. Primeiro com as mortes nos incêndios de outubro, que repetiam a tragédia de Pedrógão. Depois com Tancos, em que foi o inquilino de Belém a não deixar cair um tema que mesmo à Comunicação Social, e mais ainda à Oposição, pareceu desinteressante em muitos momentos. E a Direita, que se distrai com facilidade, não foi capaz de ver o pisca que Marcelo acendeu muitas vezes, procurando virar na sua direção. O que a Direita não viu, viu o PCP, que se queixou de ser Marcelo a puxar o Governo para a Direita em matérias a que os comunistas procuravam dar outra direção. Na Lei da Bases da Saúde ou na Legislação Laboral, por exemplo, a mostrar que este presidente não se deixou capturar pelos interesses de cada uma das claques.

Desenganem-se os que se apressam a ler nas sondagens uma queda estrutural no apoio ao presidente. A rua mostra que o povo continua a ver em Marcelo o político que se interessa pelo que acontece na vida de cada um. Faltam ainda dois anos para uma eventual recandidatura e Marcelo mantém intactas as hipóteses de repetir, ou até ultrapassar, o histórico resultado de Mário Soares.

* JORNALISTA