Opinião

O diabo na versão socialista

O diabo na versão socialista

A curto prazo não existe o perigo do Estado não ser capaz de honrar o compromisso de pagar as pensões a quem descontou para esse efeito. A médio e a longo prazo, se a legislação não for alterada, o perigo é grande.

Haverá um português entre os 30 e os 40 anos, um só que seja, que estando no mercado de trabalho, a descontar para a previdência, se sinta seguro sobre a capacidade do Estado de cumprir as suas obrigações quanto ao pagamento futuro das pensões? Pode ser que haja, eu não conheço. E se a incerteza é a única coisa certa quando falamos da evolução económica e da sustentabilidade da Segurança Social, por que razão, quando se procura fazer esta discussão, aparece sempre alguém a fazer de Pedro e a gritar "vem aí o diabo e quer privatizar a Segurança Social"?

Com a apresentação do estudo do Instituto de Ciências Sociais que, entre outras propostas alternativas, prevê o aumento da idade da reforma para os 69 anos, Vieira da Silva procurou de imediato encerrar a discussão, argumentando que o estudo interessa aos que defendem a abertura de um "mercado promissor de cada vez mais pensionistas". Para o ministro, a maioria das ideias daquele estudo "não são novas e as que são novas não são boas". Ele é dos que mais sabem sobre a matéria, sobre isso não tenho dúvidas, mas se admite que há ali ideias novas, então permita que a discussão se faça e a avaliação da qualidade dessas ideias seja determinada pelo debate e não pelos preconceitos que cada um de nós possa ter.

Este diabo que assusta os socialistas, sempre temerosos de que o Mundo inteiro se una para entregar o "negócio" aos privados, faz ainda menos sentido se tivermos em conta que o atual ministro é o autor da mais importante reforma do setor em várias décadas e que, nem por acaso, introduziu no sistema um fator de sustentabilidade que tem em conta, não só a esperança média de vida, mas também a evolução da economia. É claro que a importância do debate exige mais que o "rigor" de umas larachas enviadas por Cavaco Silva em entrevista de ocasião. Dizer que se "fala mesmo que, perto de 2050, as reformas passem a situar-se não muito longe dos 80 anos" é outra forma de dar por encerrada a conversa.

Eu, que não defendo o plafonamento, nem estou interessado nos serviços dos privados para me garantir a pensão para a qual desconto há mais de 30 anos, gostava muito que o assunto fosse motivo de debate permanente, para que o diabo não desperdice o que é meu e de todos os portugueses.

Jornalista

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