Opinião

O novo marxismo: a luta de claques

O novo marxismo: a luta de claques

Lê-se os avençados do Bloco de Direita no "Observador" ou os avançados do Bloco de Esquerda no espaço que lhes é concedido na Comunicação Social para contra-atacar e a moral da história é a mesma: a moral que importa é a que lhes der razão.

A meio da tarde de ontem, enquanto escrevia este texto, surgia uma nova polémica. A Grécia saiu do resgate, o presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, publicou um vídeo e foi atacado à Direita e à Esquerda. E o que disse Centeno? O óbvio. A Grécia cometeu erros no passado que pagou muito caro durante o período de resgate financeiro e agora regressa aos mercados com a economia a crescer e uma balança de transações positiva. Centeno recorda também que há muitos gregos a quem a evolução da economia ainda nada deu.

Não havendo dados finais sobre a economia grega no segundo trimestre, sabe-se que, em termos homólogos, no primeiro estava a crescer 2,3%, exatamente o mesmo que Portugal a meio do ano. Uma chatice para as claques, troika e geringonça empataram-se. Ainda assim, Centeno ficou com as orelhas a arder, acusado à Direita e à Esquerda. E quem foi o primeiro a lançar a pedra? O senhor Varoufakis, que acusou Mário Centeno de parecer "uma máquina de propaganda norte-coreana". A Esquerda não lhe perdoa o facto de ele não ter culpado inteiramente as instituições europeias e a troika pelo desastre grego, enquanto a Direita queria que o elogio à Grécia fosse acompanhado de um elogio ao anterior Governo português. Santa paciência!

Andemos um pouco para trás para recordar uma outra luta de claques. A propósito do caso Robles faltou aos seus camaradas perceber que o problema não foi Robles fazer política combatendo a especulação imobiliária. Nem foi ter entrado num negócio especulativo em que entram homens e mulheres de Direita e de Esquerda. Por ser de Esquerda, Robles não estava impedido de ganhar dinheiro comprando e vendendo casas, mesmo com lucros miraculosos. O que não é aceitável, à Esquerda e à Direita, é um político "pregar com tanta virulência a moral política para a seguir cometer os seus pecadilhos", como bem recordou António Costa. A polémica Robles resume-se a esta flagrante e vergonhosa contradição.

Por isto mesmo faz pouco sentido que José Manuel Pureza venha justificar Robles e o seu partido, argumentando que não recebem lições do "grande bloco político que sujeitou o país a uma onda de destruição social justificada por pérolas moralistas bacocas". E o que é bacoco para Pureza no artigo do "Expresso"? Dizer que "os compromissos com os credores são para ser honrados". Não tenho poupança para emprestar a José Manuel Pureza mas se tivesse também não emprestava, para evitar uma discussão sobre a moral bacoca de ele me devolver o que lhe emprestei e, já agora, para não ficar sem o dinheiro.

Na verdade, qualquer político que tenha defendido a intervenção da troika e a austeridade, como única forma de "honrar os compromissos com os credores", e a seguir se recusasse a pagar as suas dívidas pessoais para não ficar sem dinheiro estaria a cair no fator Robles: dizer uma coisa e fazer exatamente o contrário. Esta é a moral que se aplica à Direita e à Esquerda, a conformidade entre os factos e as palavras.

O que Pureza não consegue perceber é que é possível criticar Robles e o Bloco de Esquerda sem ser "comentador assumidamente engajado ou igualmente engajado e não assumido". Basta não fazer parte de uma claque. É igualmente por essa razão que se não se entendem os colunistas à Direita que para criticar quem não queria Le Pen na Web Summit utilizem os mesmos argumentos para lhes criticar as ligações a Jeremy Corbyn, acusado recentemente de antissemitismo, ou a Varoufakis, por uma qualquer razão. É a moral maleável ao serviço dos que não querem saber da moral para nada que não seja derrotar a claque adversária.

*JORNALISTA

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