Opinião

Para onde vamos?

Para onde vamos exige que os políticos falem verdade, inteira verdade. O que, agora, verdadeiramente se torna difícil de aceitar, tem João Miguel Tavares toda a razão, é que as desigualdades sociais se acentuam e o mérito volta a ter de competir com a esperteza e com as cunhas.

O Estado que era suposto redistribuir, dar equilíbrio à sociedade, cobrando impostos e fornecendo bons serviços públicos, é hoje um fator que ajuda a aumentar a clivagem entre os que tudo conseguem e os que já nem sonham.

Nas comemorações do 10 de Junho, o comissário João Miguel Tavares fez uma notável intervenção, pedindo que nos voltem a dar algo em que acreditar. Desígnios como a liberdade e a democracia nos anos 70, a Comunidade Europeia nos anos 80 ou a moeda única no final do século. Ele cresceu lado a lado com o que os portugueses fizeram com esta aventura de mais de 40 anos. Ele fez parte desta aventura e saiu-se bem. Como ele, uma parte significativa do país.

Vindos de um país "orgulhosamente só", quase inteiramente pobre, era difícil que a vida não melhorasse para uma larguíssima maioria dos portugueses. As oportunidades surgiram na medida em que o país evoluía economicamente, se modernizava e se abria ao Mundo. Em condições de igualdade, não somos nem melhores, nem piores, que os outros. E claro, não havia filhos de famílias que chegassem para tanta bonança, para tantos lugares, para tantas novas empresas que era preciso criar.

E agora? Para onde vamos quando dizemos aos nossos jovens que o mérito se pode resumir a um passaporte dourado, um bilhete para economias mais avançadas, que não dispensam talento? Provavelmente, vamos voltar para trás, como tem estado a acontecer durante esta década. Nunca pagámos tantos impostos e nunca nos sentimos tão mal servidos pelos servidores públicos, sejam políticos, sejam os altos dirigentes da Função Pública ou das empresas públicas. Trabalhamos cada vez mais para ter cada vez menos ensino, saúde, transportes, segurança... Para onde vamos com esta ideia de que tudo o que a justiça investiga e condena é apenas uma ponta do iceberg onde se esconde a corrupção, o compadrio, a amizade interesseira, a cunha familiar e partidária?

Não vamos mudar grande coisa. Ainda bem que o presidente das comemorações do 10 de Junho fez o discurso que fez. Pôs o dedo na ferida, o regime está doente e a precisar de uma grande reforma, mas ninguém com poder em Portugal dá crédito aos políticos que defendem o mesmo.

*Jornalista