Praça da Liberdade

Sobre Tancos exige-se mais a Marcelo

Sobre Tancos exige-se mais a Marcelo

O assalto a Tancos foi desde o início uma história mal contada. Para começar, quando foi dado conhecimento público deste roubo, os militares "esqueceram-se" de colocar na lista do material desaparecido umas dezenas de lança-granadas e uma grande quantidade de explosivos. A mostrar que confiar neles para resolver este assunto não era grande ideia, quando o material apareceu, depois de uma denúncia anónima, estava lá material de guerra que não se sabia desviado. Hoje ninguém pode garantir que material foi roubado e que material foi devolvido.

O assalto a Tancos foi há mais de um ano e a entrevista que fiz ao presidente da República, em que entre muitos temas se falou do assalto aos paióis, está também a fazer um ano. O comandante supremo das Forças Armadas estava visivelmente preocupado com o que acontecera, insistindo que não desdramatizava, garantindo que determinadas as responsabilidades tinham de ser punidos os responsáveis. Marcelo Rebelo de Sousa exigia uma "investigação cabal", que ainda decorre, "de alto a baixo doa a quem doer". O presidente tinha ido com o ministro da Defesa visitar as instalações militares enquanto decorriam as investigações, deixando mensagem clara sobre a necessidade de dar conta a todos os portugueses sobre o que realmente aconteceu naqueles paióis.

O presidente da República é o comandante supremo das Forças Armadas mas sem os poderes que existem num regime presidencialista. Marcelo queria tudo explicado e, um ano depois, o Ministério Público diz que ainda há 30 cargas explosivas que estão desaparecidas. A ser verdade esta tese do MP, ela confirma que há uma grande mentira dos militares desde o primeiro minuto. E, se toda a mentira tem perna curta, parece que no caso dos militares ela se esconde bem entre os receios dos políticos.

Da desvalorização que foi feita pelo ministro da Defesa desde a primeira hora, ao faz-de-conta dos grupos parlamentares, é a Marcelo que se exige mais do que dizer que "o presidente da República reafirma, de modo ainda mais incisivo e preocupado, a exigência de esclarecimento cabal do ocorrido". Das duas uma, ou é verdade o que diz o Ministério Público e tem de haver uma "limpeza" no Exército ou é mentira e há na investigação quem tenha de ser posto no lugar. Não, não estamos a falar de uma guerra de egos entre polícias judiciárias. É a segurança pública que está em causa.

O comandante supremo das Forças Armadas, que assumiu a gravidade do assunto desde a primeira hora, não pode estar repetidamente a colocar paninhos quentes no tema. E é isso que acontece, sempre que há dados novos e se mantém o grau de exigência presidencial. Por mais que cresça a mentira, não há forma de serem outras as consequências.

Acresce que há muito tempo que já não é apenas a questão do assalto, é também a forma como o poder político (Azeredo Lopes) e o poder militar (Rovisco Duarte) geriram este dossiê. Um e outro foram um desastre na forma como comunicaram o que aconteceu, um e outro assumiram como verdade que o material tinha sido todo recuperado. Em fim de ciclo político, pode já não importar muito se o ministro se mantém em funções, damos como certo que não estará num futuro Governo. Mas em relação ao chefe do Estado-Maior do Exército, numa instituição onde o rigor e a disciplina são o alfa e o ómega, pode permanecer na liderança quem se deixou expor a tão flagrante delito? Só mesmo por mero taticismo político, em defesa de um alegado bem superior chamado estabilidade, se pode pactuar com esta mentira.

JORNALISTA

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