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Opinião

Tudo OK. Zero Killed

Tudo OK. Zero Killed

No início de verão tardio que pôs a serra de Monchique a arder durante sete longos dias não houve mortos. Ainda bem. Há quem coloque o seu destino nas mãos de Deus e quem, como os portugueses do interior, tenha a vida suspensa pela ação da GNR. Retirados à força, muitas vezes, das casas que queriam defender. A vida colocada em perigo para defender o que lhes levou uma vida inteira a construir. Por isso, o discurso político tinha de ser mais humilde, mais perto do que verdadeiramente sentiram as pessoas por quem o fogo passou. Casas destruídas, carros queimados pelo fogo, animais mortos, quase 30 mil hectares de floresta ardida, mas não houve mortos. Tudo OK? 0 Killed, em português zero mortos, mas não chega. Para ser um êxito, não chega.

Percebe-se a autocongratulação do primeiro-ministro ou do ministro da Administração Interna. O trauma das mortes do ano passado pesa. Ninguém sequer percebeu como puderam existir a 15 de outubro, depois de terem acontecido em Pedrógão? Podia arder tudo, mas agora ninguém podia morrer. Era politicamente insustentável. E não há sequer nenhuma inversão de prioridades na determinação de que o que era preciso fazer era salvar vidas. O que não se compreende é que para salvar pessoas não seja possível salvar mais coisa nenhuma.

É, aliás, uma coisa tipicamente portuguesa muito bem trabalhada pela atual situação política. Para salvar o rendimento da maioria dos portugueses, com especial destaque para o vencimento dos funcionários públicos, também não foi possível salvar tudo o resto. É o Serviço Nacional de Saúde que funciona muito mal, os comboios que não se recomendam a ninguém, as escolas que já viveram melhores dias.

Nesta história dos incêndios, que transportam sempre consigo uma dimensão de tragédia que aconselha recato, mal se entende que os políticos apostem tantas vezes em elaboradas estratégias de comunicação. Se no ano passado falhou tudo, a estratégia de combate, a defesa da vida das pessoas e até a comunicação, este ano o que começou por falhar foi exatamente a comunicação por excesso de encenação. As fotografias de António Costa no Twitter são uma infantil tentativa de mostrar um primeiro-ministro que nem em férias está de férias. Num tempo em que as redes sociais exploram todos os pormenores da comunicação dos políticos, nem se percebe como a equipa de Costa não antecipou o arraso a que estaria sujeita aquela sequência de fotografias.

Mas, se até os que criticaram António Costa pelos excessos na comunicação se apressaram a criticar Rui Rio por não ter entrado rapidamente no debate político, o que se pode esperar de um debate público que continua a ser dominado pelas claques partidárias? Se já estamos em campanha, então talvez o líder do PS leve vantagem porque só ele pode vestir o fato de primeiro-ministro, mesmo quando aparece de férias em mangas de camisa e calças Dockers. E os portugueses, depois de décadas de democracia, continuam a deixar-se influenciar pela propaganda? Tudo se passa como Costa revelou ao "Expresso". Em 2015, percebeu que podia perder as eleições quando um eleitor lhe revelou o medo que voltássemos a uma rutura financeira. Por agora, a maioria dos eleitores não tem medo de nada. Está toda a gente de férias, muitos a crédito, e enquanto puder ser assim, está tudo OK.

*JORNALISTA

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