Opinião

O herdeiro do guterrismo prepara o futuro

O herdeiro do guterrismo prepara o futuro

Muita coisa separa António Costa de António Guterres, mas há muitos aspetos em que o atual primeiro-ministro se parece cada vez mais com o político que o levou pela primeira vez para o Governo.

Para começar, há a relação com Marcelo em que, no caso do atual secretário-geral da ONU, a amizade acabou por se cruzar com os interesses políticos, enquanto agora, no caso do atual primeiro-ministro, parecem ser os interesses políticos que se estão a transformar em amizade. Tanto acusam Rui Rio de querer ser a muleta do PS e nunca ninguém foi tão amigo dos chefes de governo socialistas como Marcelo Rebelo de Sousa.

A mais relevante das semelhanças políticas não é, no entanto, a capacidade de seduzir e ser seduzido por Marcelo. O maior trunfo de António Costa é, como foi com Guterres, a capacidade de diálogo e a tradução dessa capacidade em eficácia política. A Guterres permitiu governar à vista, estando minoritário no Parlamento, durante uma legislatura, a Costa garantiu o mesmo objetivo com um acordo assinado à Esquerda. A segunda legislatura foi para Guterres a do queijo limiano e do pântano, Costa sem maioria terá que evitar para si próprio desfecho semelhante.

Foi, no entanto, a recente remodelação feita por António Costa que puxou a minha memória para as semelhanças com uma outra remodelação feita por António Guterres na primeira legislatura. Convertido o sampaísmo e circunscrito o gamismo, começavam a formar-se novas tendências no PS, ou melhor, começavam a aparecer os potenciais líderes do futuro. Guterres dá-lhes mais poder e leva-os a todos para a residência oficial. A tentativa de dar mais peso político e maior coesão ao Governo acabou por ser igualmente a prova de que políticos unidos à volta de um líder podem ser "inimigos" na disputa pelo poder mais à frente. Costa, sem a aventura de encher a residência oficial, procurou agora ser igualmente magnânimo na distribuição do poder. Veremos o que lhe reserva o futuro, parecendo certo que, ao contrário de Guterres, esse futuro deverá ser vivido entre muros.

Daí que fique a sensação de que Costa começou a construir o futuro que pretende para si próprio. Quando amanhã se debater e votar a moção de censura, condenada ao fracasso desde o dia em que foi anunciada, estarão no hemiciclo três novos ministros escolhidos por António Costa. O líder socialista rearrumou o partido, sabendo que esta legislatura chegará ao fim e antecipando uma vitória sem maioria nas legislativas de outubro.

Por ser sem maioria, é muito provável que a próxima legislatura não chegue ao fim. Não haverá a mesma disponibilidade do PCP e do Bloco e, menos ainda, a mesma vontade do primeiro-ministro. Mário Centeno não estará nesse Governo, a conjuntura será mais adversa e as pressões mais acentuadas. Costa sabe, como sabemos todos, que o futuro próximo traz nuvens cinzentas e não vai querer prolongar, com a negociação de bastidores em que é exímio, uma governação condenada a ser pior que a atual.

Olhar para a remodelação que Costa fez no PS, a propósito das europeias e da composição do próximo Governo, implica, sobretudo, tentar perceber como quer o atual líder deixar a sua marca no partido quando chegar a hora de passar o testemunho. Não vai meter os papéis para a reforma e ficará como a melhor hipótese do PS para as presidenciais pós-Marcelo Rebelo de Sousa.

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Tendo Belém como objetivo, todo o poder entrou na equação. Uns saem do Governo para ir para o Parlamento Europeu e, provavelmente, como hipótese para Comissário, outros regressam do Parlamento Europeu para um limbo, outros ainda deixam presidências de Câmara e vice-presidências para ocupar secretarias de Estado e há os que sobem de secretários para ministros. Marcando a pauta nesta dança das cadeiras, o homem que conseguiu o facto inédito de unir as esquerdas no apoio ao seu Governo pode vir a ser o epicentro da reconquista da Presidência para o PS. Ganhe quem ganhar, António Costa estará credor da futura liderança socialista. Venha ela da Direita ou da Esquerda socialista.

JORNALISTA

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