Opinião

Temos mesmo um problema

Temos mesmo um problema

Há motivos para estarmos preocupados com a entrada em cena do Chega, um partido de um homem só, extremista e que não hesita em explorar os medos dos mais fracos para ter sucesso eleitoral.

Se num momento de baixa taxa de desemprego e crescimento económico André Ventura conseguiu ser eleito, dá para imaginar o potencial de crescimento que tem este partido abertamente intolerante com as minorias raciais e étnicas, numas eleições realizadas em cenário de crise e com a taxa de desemprego outra vez perto dos 18% (38% entre os jovens), como estava em 2012/2013.

Desenganem-se os que apressadamente dão como certo que o Chega cresceu com os eleitores do CDS. Se assim fosse, não passaria do valor onde ontem chegou. Um partido de extrema-direita, em Portugal como no resto da Europa, pesca cidadãos momentaneamente abstencionistas, zangados com o sistema e que votaram muitas vezes à Esquerda. É aí que está o seu grande potencial, admitindo ainda assim que em alguns casos terá havido em simultâneo transferência direta de votos de partidos de Esquerda e de Direita para o Chega.

A CMTV só pode estar feliz com a eleição do seu comentador. André Ventura e a televisão líder de audiências no cabo vivem em perfeita simbiose. O projeto político do comentador do Benfica e especialista de assuntos de justiça é o passo que faltava para efetivar o poder latente de um projeto editorial que amedronta os políticos que militam nos partidos do regime. Ninguém vai fazer nada de diferente do que fez o vencedor das eleições. António Costa apressou-se a dizer que não conta com o Chega para coisa nenhuma, mas esse ostracismo costuma ser o combustível que faz andar uma máquina bem mais perigosa do que parece quando a sua dimensão ainda é pequenina. Vamos ver como Ventura será muito ágil a captar a atenção dos média sediados no Parlamento. Dos três partidos que chegaram agora ao Parlamento, o Chega foi o que menos entrou em euforias. Ventura apareceu na noite eleitoral para pedir calma e afirmar-se democrata. Ele sabe que há momentos em que é preciso manter-se na sombra.

A performance eleitoral de Ventura é bastante mais fraca no Norte do que no Sul, onde se afirma como sexto partido. Em Loures, o Chega foi sexto à frente do CDS mas atrás do PAN, na Amadora foi sétimo e em Sintra também. Na margem sul andou sempre entre o sexto e o sétimo lugar. Em três círculos eleitorais (Lisboa, Setúbal e Faro) com forte presença de imigrantes, o partido de André Ventura consegue mais de 25 mil votos, uma percentagem muito significativa em relação aos 66 mil votos conseguidos nos 20 círculos do mapa eleitoral. Já chegou e tem tudo para crescer.

*Jornalista