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A carestia de Montenegro

A carestia de Montenegro

"Eu sei que a vida quotidiana das pessoas não está melhor, mas não tenho dúvidas que a vida do país está muito melhor". Esta frase, que encerra uma insanável contradição, foi proferida por Luís Montenegro no dia 20 de fevereiro de 2014, numa entrevista ao JN. À altura, o agora presidente do PSD era líder da bancada parlamentar social-democrata e intransigente defensor da cura de emagrecimento prescrita por Passos Coelho, o primeiro-ministro a quem caiu no colo o resgate financeiro de Portugal.

As contradições insanáveis parecem perseguir o social-democrata. Será azar, ou falta de jeito para as enxotar. No mesmo dia em que jurou que as pessoas serão o alfa e o ómega das suas preocupações, Montenegro destruiu um dos mais fortes instrumentos de concretização efetiva dessa proximidade, ao recusar um referendo à regionalização em 2024. É um grosso erro político.

Ao afastar a regionalização para as calendas, o líder do PSD permite, desde logo, que arrefeça o "ferro quente" da descentralização em que os autarcas vinham malhando - e com toda a razão. A coisa far-se-á, agora, devagarinho, à boa maneira portuguesa. Depois, Montenegro tira dos ombros de Costa o peso de um referendo que, como toda a gente sabe, o primeiro-ministro não desejava. E, mais importante do que tudo, o novel chefe social-democrata pactua com a continuação de um Estado centralista, pesado e distante das pessoas que diz querer defender.

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O líder do PSD acha que a carestia de vida imposta pelas atuais circunstâncias é de tal monta que os portugueses não suportariam discutir a regionalização. Insanável contradição, outra vez: Montenegro coloca as pessoas no âmago da sua estratégia, mas sonega-lhes o (eventual) acesso a um patamar de decisão que, justamente, visa melhorar as suas vidas. Os centralistas agradecem.

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