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A diferença está no quadro

A diferença está no quadro

A procissão saiu do adro (quer dizer: as negociações entre os partidos do arco do poder mal começaram) e já o PS anda agitado, estado que, como se sabe, é o predileto da agremiação liderada a partir do Largo do Rato, sempre e quando, como é o caso, o líder só lidera a parte do partido que lhe é tolerada liderar.

É ouvir com ouvidos de ouvir o que disseram José Sócrates, o poderoso fantasma socialista, e Manuel Alegre, o poderoso ideólogo socialista, para perceber como o caminho de António José Seguro está carregado de mais bicudas pedras do que as que aparenta.

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"O PS não pode, nem vai aceitar" o acordo proposto pelo presidente da República, clamou, com a habitual veemência, o ex-primeiro-ministro. Argumento de Sócrates: estão a pedir ao PS que caucione "despedimentos na Função Pública e reduções das pensões", entre outras malvadezas que não cabem no ADN socialista, se é que tal coisa ainda existe. E, se assim for, o PS fica "amarrado ao Governo e chegará às eleições desgastado", acrescenta o histórico Manuel Alegre.

O sinal é claro: a ala socrática e a ala mais à esquerda do PS, pelo menos estas, estão à espreita: se Seguro escorregar, há quem esteja disposto a dar-lhe um empurrãozinho, até ele se estatelar. Já não bastavam os perigos que a negociação encerra: agora, Seguro (arrisco acrescentar: o PS e o país) tem à perna os mais acérrimos críticos, para dizer o mínimo, do presidente da República, todos pouco dispostos, como bem se vê, a engolirem o elefante que Cavaco Silva colocou no centro da vida política portuguesa.

José Sócrates e Manuel Alegre estão a fazer politiquice, quando esta é a hora de fazer política. Goste-se ou não do homem e do método que escolheu, a verdade é que o chefe de Estado abriu espaço para uma eventual recuperação da credibilidade dos partidos e, em certo sentido, para uma espécie de regeneração do regime. Não querer aproveitar a oportunidade é estultícia - e, creio, sairá politicamente bastante caro a quem se colocar fora da discussão por causa dos pormenores.

Na verdade, o que se pretende com o acordo é fixar objetivos, amarrando os partidos a eles, sim, mas deixando-lhes margem de manobra para os alcançar seguindo este ou aquele caminho. No fim das contas, o importante é saber quanto podemos gastar. O eleitor escolherá, de entre as propostas que lhe forem apresentadas, como se irá gastar.

Claro: esta baliza limita a venda de ilusões. Claro: isto só se consegue não somando dívida à dívida e despesa à despesa. Afinal, a diferença está no quadro: antes, podíamos desenhar na lousa os traços ilusórios que nos trouxeram até aqui; agora, o quadro é eletrónico e apita sempre que as contas não baterem certo. Há toda uma diferença. E há quem teime em não a ver.

A vingança provoca cegueira.

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