Opinião

A lição de Matosinhos

A lição de Matosinhos

Narciso Miranda acaba de criar uma associação cívica com o aparente propósito de solidificar as bases da sua candidatura à liderança da Câmara de Matosinhos. Ou seja: Narciso está definitivamente apostado em concorrer nas eleições autárquicas contra Guilherme Pinto, seu companheiro de partido. Em que condição será Narciso candidato? Suspenderá a militância, como fez Helena Roseta em Lisboa? Ou abandonará o partido que o considerou durante largos anos um autarca-modelo? Como devem os partidos reagir a situações destas? Expulsam os militantes?

As virtudes e os defeitos das candidaturas independentes voltarão a ser tema de debate com o aproximar das eleições autárquicas. No último sufrágio, fenómenos como os de Valentim Loureiro (Gondomar), Fátima Felgueiras (Felgueiras) e Isaltino Morais (Oeiras) colocaram aos partidos uma questão ética e outra de mercearia. A primeira prende-se com a definição do limite a partir da qual deixa de ser possível a um partido político apoiar um determinado militante. A segunda decorre da primeira: qual é o prejuízo eleitoral aceitável, no caso de as candidaturas substitutas serem claramente perdedoras?

Regressemos a Matosinhos: o PS arrisca-se a perder a Câmara, seja para Narciso, seja para o PSD, caso este apresente um bom candidato, capaz de partir o eleitorado socialista e fazer o pleno à direita. Perante essa ameaça, o que deveria o partido fazer: acolher Narciso, a quem tantos políticos recorreram quando precisavam de banhos de multidão na lota de Matosinhos, e abandonar Guilherme Pinto? Posto agora perante a candidatura de Narciso, deve o PS promover a sua expulsão do partido?

Os partidos sabem que jogam boa parte da sua credibilidade - e do seu futuro - na forma como responderem a este tipo de problemas. E só há uma forma de os enfrentar: aplicando a regra da máxima liberdade, máxima responsabilidade. Isto é: os militantes são obviamente livres de optar por candidaturas independentes (essa é, aliás, uma interessante válvula de escape ao "diktat" partidário), mas devem fazê-lo sabendo que rompem um conjunto de compromissos assumidos quando decidiram integrar o partido. E os partidos devem ter a coragem de aplicar as sanções que os seus estatutos prevêem. O que não vale a pena é assobiar para o lado e fingir que tudo não passa de humores de circunstância. O resto o eleitorado resolverá com o voto. Não se pode amar o "povo" quando dá jeito e não confiar nele quando não dá jeito...

Outra vez Matosinhos: não se vê muito bem como Narciso pode continuar a ser militante do PS. A figura da suspensão da militância é de uma hipocrisia atroz. Falta saber quem dará o primeiro passo: Narciso ou a Distrital.

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