O Jogo ao Vivo

Opinião

A paulatina tragédia

Para quem tem a sorte de conhecer boa parte do Interior do nosso país, os dados libertados recentemente pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) são apenas a confirmação traçada a fino das impressões que vamos formando a traço grosso, sempre que andamos por terras em que sobra território e falta gente.

Pouco antes de conhecida a estatística, partilhei com o meu colega André Rolo uma semana de trabalho nos seis municípios agrupados na Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa (Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Oleiros, Penamacor, Proença-a-Nova e Vila Velha de Ródão). O património natural, histórico, cultural e gastronómico da sub-região é incrível. Mas, lá está, há um crescendo de povoações que definham a olho nu, à espera que o tempo leve os que estoicamente resistem.

É assim há demasiado tempo. Mas nunca foi assim tão mau, quando se olha para o que diz o INE: somos menos, estamos (ainda) mais concentrados no Litoral e, pior do que isso, é a primeira vez que, desde 1970, o país perde população entre Censos.

As causas e consequências desta paulatina tragédia estão há muitos anos estudadas, analisadas e ponderadas pelos estudiosos da matéria. E, contudo, nunca as políticas públicas foram capazes de se articular para travar o desastre. Porquê? Porque se olha sempre para o curto prazo, somando medidas avulsas e paliativas que enchem o olho, enquanto o Interior continua a esvaziar-se.

O Luxemburgo, por exemplo, preferiu olhar para o longo prazo, quando, há décadas, desenhou uma política de imigração verdadeiramente integradora e acolhedora, logo capaz de responder à previsível quebra da natalidade e da mão de obra. O resultado está à vista: hoje, um em cada quatro luxemburgueses tem nome português. O ex-vice-primeiro-ministro do Grão Ducado (afastou-se por questões de saúde) tem ascendência portuguesa. Sendo, de longe, a maior comunidade estrangeira daquele país, os portugueses foram decisivos para que o Luxemburgo tenha por estes anos o maior crescimento demográfico da Europa.

Quer dizer: mais do que fazer coisas e coisinhas, arte em que somos muito bons, o que interessa mesmo é não fazer asneiras, arte em que somos muito maus. Os resultados estão à vista.

*Jornalista

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG