Opinião

A política do engonhanço

A política do engonhanço

A ligação aérea Bragança-Lisboa-Bragança parou. E, pelo que se percebe, assim ficará durante muito tempo. Há um problema de concorrência levantado pela Comissão Europeia decorrente da indemnização anual (mais de 2 milhões de euros) que o Estado entregava à empresa concessionária do serviço.

É um problema que o Ministério da Economia demorou um ano a considerar (quer dizer: andou um ano a engonhar). A solução chega agora: o Governo só admite pagar parte das passagens dos residentes. Os outros pagam a viagem na totalidade. Quanto custa a viagem? 128 euros, ida e volta, com ajuda do Estado; perto de 800 euros, ida e volta, sem ajuda do Estado.

Portanto, se um empresário não indígena quiser investir no distrito de Bragança terá de meter nas previsões de custos um balúrdio para viagens, porque o Governo não está disposto a ajudar nesse luxo que é montar uma empresa e criar emprego naquele distrito transmontano. Mas, caso um pai (ou uma mãe) diligente queira ir até Lisboa levar aos filhos as couves-tronchas, as batatinhas e o azeite lá da terra para o Natal, aí o Governo já está disposto a suportar parte dos custos da viagem.

Agora que o ministro da Economia conseguiu, aparentemente, libertar-se um bocadinho das garras do ministro Gaspar, resta-nos rezar para que não sejam deste tipo as políticas de crescimento económico, baseadas no engonhanço, que o ministro Álvaro tem em mente.

Já em Castelo Branco vai encerrar o call center da Segurança Social que chegou a empregar 400 pessoas. A coisa andou para trás e para a frente, sempre a engonhar: primeiro, iam todos para o desemprego, depois só 160 perderiam a sua principal fonte de rendimento, a seguir ficariam 50... No final, e depois de muito engonhanço, perdem-se os 400 postos de trabalho.

O argumento do ministério é este: o serviço que era prestado a partir de Castelo Branco será distribuído por vários pontos do país. Não se sabe o essencial: que pontos do país (do interior ou do litoral?); e, dos 400 empregos iniciais, quantos sobreviverão, afinal? Ou melhor: sobreviverá algum?

É com recurso ao engonhanço que o Governo trata problemas do interior do país como os aqui citados. É assim há muitos anos - e assim será durante muitos anos.

O engonhanço, lê-se na Wikipédia, é a "habilidade para fazer o tempo passar, ocupando-o, sem que se faça nada de proveitoso. É no entanto uma arte de perícia, muito para além da preguiça. A necessidade de engonhar advém do facto de se ter algo para fazer e nenhuma vontade para tal. Vê-lo feito é, não obstante, um desejo, facto que faz o engonhanço diferir da preguiça. Quem engonha sente variadíssimas vezes, depois do ato ou efeito de engonhar, a consciência a pesar".

A consciência pesa-lhes?

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