Opinião

A seleção e o sentido do absurdo

A seleção e o sentido do absurdo

A seleção não estava a jogar patavina, de modo que, perante o enfado, peguei no livro de Rentes de Carvalho para me desaborrecer um bocadinho. "Portugal, a flor e a foice" é tão cortante quanto desconcertante: numa prosa de luxo, o gaiense emigrado há longos anos na Holanda desfaz, questionando-os, alguns dos mitos da História de Portugal. Do Sebastianismo a Fátima, passando pelos Descobrimentos, pela Monarquia e, sobretudo, o antigo regime e o 25 de Abril, pouco escapa à pena aguda de Rentes de Carvalho.

Escrito entre Abril de 1974 e Outubro de 1975, o livro antecipa um futuro desolador a partir da leitura dos factos marcantes de um passado trágico. Manipulável, o povo sempre anuiu e obedeceu. Passivo, o povo acomodou-se à sombra da árvore da indiferença. A obsessão de partir à procura de um pouco de vida e de um pouco de liberdade fez - e faz - de nós um povo de emigrantes, destino trágico, mas expectável, para uma nação de caráter dúbio e subserviência certa que, incapaz de se olhar ao espelho com espírito crítico, sempre sonhou ser mais do que aquilo que pode e consegue efetivamente ser.

Não é abuso nem exagero trazer a discussão para o campo da bola. Os espasmos de alegria alcançados pela seleção de futebol são isso mesmo - espasmos. De vez em quando lá aparece uma fornada de jogadores com jeito para a coisa e um treinador que sabe aproveitar as capacidades de todos e controlar o vedetismo inconsequente de uns quantos. Costuma ser sol de pouca dura. O que se entende, dado que nos falta arte, na bola como em muitas outras áreas, para estruturar e amadurecer projetos. Também na bola sonhamos ser mais do que podemos ser.

A vergonha que passamos quando somos derrotados pela Albânia é tributária da estratégia do desenrasca, a que recorremos sempre que sentimos necessidade de tapar o sol com a peneira. Humilhados no Mundial, descobrimos uma pobre figura para fazer a vez do bode expiatório: o médico da seleção! Tudo o resto se manteve intacto. Os modos e as manias. Os medos e as fobias. A obediência e a anuência. Deu no que deu, porque não podia dar noutra coisa.

Antes do jogo trágico, o treinador ironizou, dizendo-se mais incompetente depois do que se passou no Brasil. Após o jogo vergonhoso, a ironia infeliz caiu-lhe em cima com o estrondo de um trovão. O que espera, agora, Paulo Bento? Pouco, muito pouco. Preservadas as distâncias, a seleção portuguesa de futebol faz lembrar a peça "À espera de Godot", de Samuel Beckett: é uma tragicomédia em dois atos. Com uma ligeira diferença: no teatro do absurdo magistralmente criado pelo irlandês, o absurdo consegue ter sentido; a seleção, tal como está, é um absurdo sem nenhuma espécie de sentido. O trágico de Rentes de Carvalho ainda por aqui anda...

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