Opinião

A verdadeira concertação social

A verdadeira concertação social

A Jerónimo Martins, proprietária dos supermercados Pingo Doce e liderada por Alexandre Soares dos Santos, aquele senhor de cabelos brancos que foi vergastado pela Esquerda quando, há uns meses, mudou a sede da sua holding para o "paraíso fiscal" holandês, deu ontem uma lição de marketing ao país (logo à concorrência, com a Sonae de Belmiro Azevedo à cabeça).

No Dia do Trabalhador, a cadeia de distribuição decidiu cortar para metade o valor a pagar pelo consumidor, desde que as compras ultrapassassem os 100 euros. Pelo país inteiro, as lojas Pingo Doce rebentaram pelas costuras, esgotaram as prateleiras e, em alguns casos, tiveram mesmo de fechar mais cedo, por serem incapazes de dar vazão à procura. Simples e eficaz, a estratégia, estou em crer, ficará nos anais da história do marketing em Portugal, por somar duas coisas: o interesse dos consumidores, obrigados a gerir apertadíssimos orçamentos, e o reforço e fidelização de uma marca com o cabedal do Pingo Doce.

Este movimento "out of the box" (fora do normal, em tradução muito, muito livre), como diriam os criativos, tem uma história. A empresa "pediu" aos seus funcionários para trabalharem no feriado do 1.o de Maio, o que mereceu a pronta reação dos sindicatos, que apelaram aos consumidores para não fazerem compras nas lojas da Jerónimo Martins. Os consumidores responderam enchendo os supermercados. Eis a verdadeira ironia: ontem foi dia de verdadeira concertação social - trabalhadores e patrões entenderam-se e os consumidores tiraram o devido proveito desse facto. O negócio foi proveitoso para as partes, sem a intermediação dos sindicatos...

Claro: não faltará quem, do alto do mais dogmático pedestal, veja nisto uma vergonhosa cedência ao poder económico, uma alienação consumista típica do mais feroz capitalismo, um aproveitamento atroz da força de trabalho num dia feriado, uma traição, enfim, aos mais elevados valores da classe trabalhadora.

E, no entanto, tudo se resume a um par de palavras: criatividade e poupança. Uma e outra são, em certo sentido, o espelho dos dias que correm. A primeira deve ser a chave-mestra das empresas capazes de responder com engenho e arte às dificuldades. A segunda é a palavra mágica para as famílias e consumidores individuais: tudo o que puder ser amealhado garante, pelo menos, um curto prazo menos asfixiante.

Ontem, tive o prazer de almoçar com o reitor da Universidade do Minho. Dizia-me António Cunha que, quando abandonar o cargo, gostava de deixar como marca a criação de um "perfil exigente e diferenciado pela criatividade". Os portugueses que não ligaram patavina ao idiota apelo dos sindicatos e fizeram fila nos supermercados da cadeia Pingo Doce entendem esta linguagem. Ainda bem.