Opinião

Entreguem o Viriato ao senhor...

Entreguem o Viriato ao senhor...

O eurodeputado Fernando Ruas, eleito na segunda posição da lista ao Parlamento Europeu apresentada pelo PSD, recusou receber o Viriato de Ouro, a mais alta distinção atribuída pelo município de Viseu às personalidades da cidade e do concelho.

Ora, Ruas é uma iminente personalidade viseense, desde logo porque liderou a Câmara Municipal durante muitos e muitos anos. O Executivo, agora comandado pelo social-democrata Almeida Henriques, decidiu, por unanimidade, atribuir o galardão ao eurodeputado (apenas se absteve o Bloco de Esquerda). Marcou a entrega para o Dia do Município. O eurodeputado, contudo, não apareceu à festa. Porquê? Porque queria uma festa só para ele. Não estava disposto a receber a distinção numa "cerimónia ao molho" (sic).

Quer dizer: Fernando Ruas acha-se acima dos restantes galardoados, o que não está mal. Fernando Ruas entende que os prestimosos serviços prestados à cidade e à comunidade devem ser exaltados, e bem exaltados, numa festarola cheia de lantejoulas, bandas de música e foguetes que tenha como único objetivo incensar a obra do homem - e talvez mesmo o próprio homem, sagaz político que deu tudo o que podia e sabia pela sua terra.

Fernando Ruas, estou em crer, não descartaria a possibilidade de ser criado um feriado em sua homenagem: a data em que o povo sairia à rua, devidamente ataviado, para exaltar o eurodeputado. A cerimónia começaria com uma missa, a que se seguiria um almoço, grátis, e um discurso do galardoado com o mínimo de duas horas. A festa entraria pela tarde adentro e culminaria com uma intervenção laudatória do primeiro-ministro ou do presidente da República (todas as restantes possibilidades seriam incongruentes com a amplitude e importância do evento).

Andará bem a autarquia se, a partir de agora, seguir o sábio conselho do sábio Honoré de Balzac: "Deve deixar-se a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir". Sim, porque, no caso, Ruas serviu-se da vaidade para esconder a acrimónia. Incomodado por a Câmara ter recusado pagar-lhe o subsídio de reintegração (uma coisa mais ou menos imoral aplicável a alguns titulares de cargos públicos), o eurodeputado viu neste episódio a possibilidade de espetar uma bofetada de luva branca na cara do seu sucessor. Não acertou - e sujou as mãos e os princípios da mais elementar cordialidade e bom senso.

A política, a boa política exige correção e elevação, deveres austeros e de prática difícil, é certo, mas ambos uma necessidade absoluta para quem esteve e quer continuar a estar nela. Digamos que Fernando Ruas se esqueceu desta regra, quando recusou receber o Viriato de Ouro. Pode ter sido apenas um mau momento - e a um mau momento todos temos direito, não é verdade?

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG