O Jogo ao Vivo

Opinião

Espanto e espantalho

A recente descoberta do presidente da República deixou atónito bem mais de meio mundo. Cavaco Silva fez as contas, como bom economista que é, e chegou a esta conclusão: a vida dos portugueses só começa a ficar verdadeiramente desafogada lá para 2035, quando as contas do país estiverem, finalmente, equilibradas. E, ainda assim, será preciso contar, entre outras ciclópicas tarefas, com um crescimento económico a rondar os 4% ao ano. É obra. Mais de meio mundo, como dizia, abriu a boca de espanto - e a parcela que resta manteve-a fechada, mordendo a língua para evitar que os palavrões enchessem o ar pesado dos dias que correm.

A verdade, nua e crua, é esta: aquilo que o chefe de Estado escreveu no prefácio do livro com a compilação dos seus discursos só pode ter apanhado de surpresa os mais distraídos. Pode ser que a ilusão nos sustente a alma como as asas sustentam os pássaros, parafraseando o grande Victor Hugo. Mas esta ilusão saiu-nos demasiado cara. Há quem a sinta no corpo, há quem a sinta na alma e há, certamente, quem a sinta no corpo e na alma. É por isso que, ao contrário de tantas outras vezes em que escolheu gerir o silêncio quando se impunha ouvir a sua palavra, Cavaco Silva fez bem em derramar este balde de água gelada sobre os incautos e sobre os chicos--espertos que já nos andavam a acenar com descidas de impostos como prova de que a descida ao purgatório terminou. Não terminou.

PUB

Quer dizer que isto não tem solução? Quer dizer que nos andaram a esmifrar, a encher-nos os bolsos de pesada austeridade para nada? Resposta: isto tem solução, desde que não continuem a servir-nos doses de ilusão de acordo com os ciclos eleitorais; desde que os partidos com responsabilidades governativas ponham de lado o acessório e coloquem todas as fichas no essencial; desde que, enfim, não nos digam que isto só lá vai eternizando os cortes salariais e das pensões, dentro e fora da Função Pública.

E, claro, desde que não nos obriguem a engolir pornografia servida sob a forma de Justiça. O que aconteceu na semana passada com Jardim Gonçalves corta em pequenos e irremediáveis pedaços toda a vontade que consigamos colocar nessa coisa chamada construção do futuro. Um país onde é possível que expedientes jurídicos, mais ou menos elaborados, façam prescrever um processo de tamanha importância é um país que não pode olhar-se ao espelho. Não se trata de saber se o fundador é, ou não, culpado. Trata-se de saber que um banqueiro escapa a uma multa de um milhão de euros porque a Justiça não conseguiu julgar o caso a tempo e horas. É a mesma Justiça que demora 12 anos a dar razão a uma menina de 4 anos queimada para a vida por causa da incompetência de uma clínica de radiologia. A Justiça está para o país como o espantalho para os pássaros: só assusta e espanta os mais fracos. Os outros continuam a voar e a comer livremente...

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG