Opinião

Cortaram o cravo do António

Cortaram o cravo do António

A peça de propaganda produzida pela equipa que apoia António José Seguro na corrida às primárias do PS é das coisas mais básicas, banais e infantis de que me lembro desde que sigo a política em Portugal. Falo daquela pérola que foi colocada nas redes sociais: um tipo planta, aduba e rega com cuidado um cravo; a flor cresce viçosa; chega um malvado de tesoura em riste e, zás!, corta o cravinho; ouve-se uma voz melíflua: "Gosta do que viu? Está disposto a apoiar um projeto que começa assim?" O malvado, claro, é António Costa, destruidor de cravos, símbolos da liberdade. O bonzinho é António José Seguro.

Nada disto teria especial importância não se desse o caso de este pueril exercício comunicacional ser portador de duas mensagens políticas.

Primeira: António José Seguro vê nos simpatizantes e militantes do PS gente que precisa de ser educada, que não distingue o bem do mal, que corre o risco de raciocinar mal, se não for devidamente ensinada. E ensinada como? Como se faz na primeira classe: com mensagens básicas que não ocupem muito tempo, muita paciência e, sobretudo, muitos neurónios ao destinatário. Quando pretende ser provocador, Seguro acaba por ser assustador.

Segunda e mais importante: ao insistir, uma e outra vez, no tom lamechas, o líder do PS revela um preocupante traço de carácter (político, bem entendido). Em política, há sempre um tempo para o queixume e outro para sublinhar o peso da realidade herdada. A prática aconselha a que não se abuse desse tempo - e com razão, dado que, a partir de certa altura, as mágoas carpidas são confundidas com inação. Ora, o paroxismo do "estilo calimero" foi alcançado por António José Seguro.

Convenhamos: um país que precisa de ação e arrojo não necessita de um líder que faz beicinho mal tropeça na primeira pedra; que se queixa de ser perseguido pelos malfeitores, desejosos como estão de tomar de assalto o partido que ele laboriosamente reergueu (?) das cinzas; que olha para trás à procura do inimigo que se esconde na moita, quando devia olhar para a frente, porque por aí é o caminho. António José Seguro é o típico líder que se estriba na não-decisão, modo de contentar todos evitando o conflito. Há quem chame a isto humildade e busca do consenso. É mentira: trata-se de falta de capacidade e medo do dissenso. Claro: António Costa agradece. Segue o conselho de Napoleão: "Nunca interrompas o teu inimigo enquanto estiver a cometer um erro."

Pior do que este Seguro inseguro só o Santana desnorteado de 2004. Que disse isto: "Este é um Governo a quem ninguém deu quase o direito de existir antes dele nascer. Após um parto difícil, teve que ir para uma incubadora, e vinham alguns irmãos mais velhos e davam-lhe uns estalos e uns pontapés". Uma pérola agora aplicada ao PS.