Opinião

Crónica da consolação que resta

Crónica da consolação que resta

É impressionante, quase arrepiante, o que por estes dias temos visto e ouvido em Portugal. No Portugal político, para ser mais correto, que é cada vez menos capaz de acertar o passo com o Portugal real. Os jogos florais entre Passos Coelho e Paulo Portas em torno do imposto sobre as pensões de reforma são um bom exemplo desta tragicomédia. Mas são apenas mais um exemplo.

Estamos no seguinte estado.

O primeiro-ministro vai ao Parlamento falar sobre a trajetória de sucesso que temos feito nos últimos dois anos - e nós lembramo--nos, ato contínuo, dos 42% de jovens que não conseguem arranjar emprego. Estamos a provocar a extinção de uma geração inteira, basicamente, mas continuamos alegremente a seguir a trajetória de sucesso.

O ministro das Finanças abre um sorriso de orelha a orelha quando fala da colocação de dívida soberana no mercado - e nós lembramo--nos que 20% dos condutores da Carris já desmaiaram em pleno serviço porque não têm dinheiro para se alimentar devidamente (há mesmo, entre estes profissionais, quem fique com o apuro da venda de bilhetes para pagar as contas e matar a fome aos filhos. Será crime?).

O primeiro-ministro atreve-se a prever um futuro perto do radioso para os anos que se seguem. E nós lembramo-nos dos sucessivos ataques aos rendimentos dos pensionistas que hoje sustentam os filhos, os netos, os genros e as noras.

O primeiro-ministro insiste, tarde e a más horas, em chamar o PS para o consenso - e nós pensamos que, se o tivesse feito mais cedo, talvez algumas das políticas defendidas pelos socialistas ajudassem a travar a brutal escalada do desemprego.

Há dias, no programa "Quadratura do círculo", da SIC-Notícias, António Lobo Xavier dizia, com assinalável frieza, que todas as desgraças que afligem os portugueses devem ser descontadas em qualquer discussão sobre o futuro, por serem uma evidência. Este é o perigo maior dos dias que correm: permitir que os jovens desempregados, os pensionistas lesados, os funcionários públicos amedrontados, os funcionários da Carris assustados, os que deixam o país para encontrar, apenas e só, modo de sobreviver, que todos estes saiam do discurso político de um país escanzelado nas contas e despido na dignidade.

Ambrose Bierce escreveu nas suas "Fábulas fantásticas" um conto chamado "Consolação". Reza assim: "Depois daquele grande país ter dado provas da bravura dos seus soldados, graças a quinze derrotas (...) o respetivo primeiro-ministro decidiu pedir paz.

- Não vou ser duro convosco, declarou o vencedor. - Podereis conservar tudo quanto vos pertence, menos as colónias, a liberdade, o crédito e a dignidade.

- Ah! - exclamou o primeiro-ministro. - Sois, na verdade, magnânimo, pois nos deixais a honra". Um destes dias, a nós nem essa consolação nos resta.